Itaporã - Solteiro e sem filhos, Ernesto comemora 102 anos ao lado de sobrinhos e parentes

| DOURADOSNEWS / CRISTINA NUNES


Ernesto comemorou 102 anos no domingo (13) - Crédito: Cristina Nunes/Dourados News
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Cercado por sobrinhos, primos e outros familiares, Ernesto Cançado Vieira comemorou no último domingo (13/9) seus 102 anos de vida. A festa reuniu diferentes gerações da família em Itaporã e marcou mais um capítulo da história de um homem que atravessou mais de um século de transformações em Mato Grosso do Sul.

Nascido em Ponta Porã em 13 de setembro de 1924, Ernesto nunca se casou e não teve filhos. Mas isso não significa que o casamento nunca tenha passado pelos planos. Ao longo da vida, ele chegou a namorar, ficou noivo e até construiu uma casa pensando em viver com a futura esposa. No fim, porém, sempre acabava desistindo.

Ernesto não aponta diretamente uma razão para as desistências, mas os sobrinhos têm uma explicação bem-humorada para o comportamento do tio. “Ele sempre foi muito desconfiado”, contam.

Aos 102 anos, quando questionado se se arrepende de não ter se casado ou de não ter tido filhos, ele responde sem demonstrar lamentação e sorridente. “Passou o tempo já, não adianta chorar o leite derramado”.

A vida sem esposa e filhos fez com que os sobrinhos e demais parentes ocupassem um espaço importante na trajetória de Ernesto. Foi ao lado deles que ele também comemorou o aniversário de 100 anos, celebrado em 2024, 101 em 2025 e agora voltou a reunir a família para marcar a chegada aos 102.

Ao longo desse tempo, Ernesto acumulou memórias de uma região que também mudou completamente. Seu avô, Manoel Lopes Cançado, é apontado em relatos de historiadores de Mato Grosso do Sul como um dos pioneiros a chegar à região em um carro de boi junto com a família Azambuja, vindos de Uberaba (MG), em 1888, junto com outros conterrâneos mineiros que ajudaram a povoar as terras que décadas depois dariam origem a Dourados. 

O próprio Ernesto guarda lembranças de uma época em que a cidade ainda era muito diferente da atual.

“Quando eu vim de Ponta Porã para cá, Dourados era um lugar completamente diferente do que vemos hoje e teve o primeiro nome como ‘Patrimônio Novo’. Onde hoje está a Igreja do Relógio, antigamente era um cercado de pasto, repleto de vacas leiteiras”, contou ao Dourados News.

Ao longo de mais de um século, também vieram perdas. Ernesto já enterrou os pais, três irmãos e quatro irmãs, entre eles seu irmão gêmeo, Ernestino, que morreu aos 89 anos.

“Já perdi muita gente, inclusive meu irmão gêmeo, mas Deus me deixou aqui por algum motivo”, afirmou.

Para Ernesto, a fé também está entre as razões para ter chegado aos 102 anos. “A gente vivia no campo, longe de tudo, mas sempre com Deus no coração. Eu só cheguei até aqui por causa d'Ele”, disse.

A rotina simples também sempre fez parte da vida do centenário. Arroz, feijão e carne estão entre os alimentos que ele considera essenciais, acompanhados do tradicional chimarrão com ervas medicinais. Durante muitos anos, também manteve o hábito de caminhar longas distâncias.

Até os 93 anos, Ernesto caminhava vários quilômetros por dia. Hoje, diminuiu o ritmo, mas continua lúcido e fazendo questão de preservar a autonomia e realizar sozinho as atividades do cotidiano.

Aos 102, entre histórias de amores que não chegaram ao altar, uma casa que acabou não sendo compartilhada e uma família que cresceu ao redor dele, Ernesto segue colecionando memórias de mais de um século. 

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