A Ditadura da Vida Alheia — por Kah Yada

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A Ditadura da Vida Alheia — por Kah Yada
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Cotações

Há uma estranha contradição no discurso contemporâneo sobre liberdade. Nunca se repetiu tanto que cada pessoa deve viver conforme suas próprias escolhas e, ao mesmo tempo, nunca pareceu haver tanta gente disposta a fiscalizar como os outros amam, se relacionam, casam, têm filhos ou simplesmente decidem viver sozinhos.

A intimidade foi banalizada a ponto de o extraordinário, em determinados ambientes, ser justamente estabelecer limites. Ficar com alguém sem qualquer intenção de compromisso é considerado absolutamente normal. Relações físicas e emocionais podem começar rapidamente e terminar com a mesma velocidade. Pessoas entram na vida umas das outras, compartilham corpos, segredos, vulnerabilidades e depois desaparecem como se nada tivesse acontecido.

Não se trata de defender que o Estado, a sociedade ou qualquer religião deva invadir a vida privada dos indivíduos. Trata-se de reconhecer que liberdade sexual não deveria significar obrigação sexual.

Porque existe uma ironia evidente quando uma sociedade que exige respeito às escolhas ridiculariza justamente quem escolhe dizer "não".

A pessoa que prefere não ficar com qualquer um é chamada de exigente. Quem deseja se guardar para o casamento é tratado como antiquado. Quem associa sexo a compromisso é visto como reprimido. Quem não quer colecionar relacionamentos precisa justificar por que prefere esperar.

Que espécie de liberdade é essa em que todas as escolhas são respeitáveis, desde que sejam as escolhas socialmente aprovadas?

A fé cristã oferece uma resposta profundamente contracultural a essa lógica. Embora católicos e protestantes reformados possuam diferenças teológicas importantes, ambas as tradições reconhecem algo que nossa época parece esquecer com facilidade: o corpo humano possui dignidade e a sexualidade envolve responsabilidade moral.

Na tradição reformada, a liberdade do cristão não significa independência absoluta de Deus. Corpo, afetos e sexualidade permanecem debaixo do senhorio de Cristo. Na tradição católica, a dignidade da pessoa também impede que o outro seja reduzido a instrumento de satisfação.

Em 1 Coríntios 6:19, Paulo pergunta: "Não sabeis que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo?"

Pode parecer uma ideia ultrapassada para alguns. Mas a antiguidade de uma convicção não demonstra sua falsidade.

Talvez seja necessário perguntar se avançamos realmente quando transformamos pessoas em experiências.

Porque não banalizamos somente o sexo. Banalizamos o "eu te amo". Banalizamos promessas. Banalizamos a intimidade emocional. Banalizamos o acesso ao corpo e, algumas vezes, até o acesso às fragilidades mais profundas de alguém.

Criamos relações suficientemente íntimas para produzir feridas, mas convenientemente indefinidas quando chega a hora de assumir responsabilidades.

Depois dizemos que o amor é complicado.

Não necessariamente.

"Eu amo você" é uma frase simples.

"Eu temo isso" é simples.

"Eu quero ficar" é simples.

"Eu não quero continuar" também.

"Isso me machucou."

"Eu preciso de espaço."

"Eu quero compromisso."

"Eu não quero compromisso."

Nenhuma dessas frases exige um tratado filosófico.

O ser humano é que frequentemente transforma sentimentos relativamente simples em labirintos desnecessários.

Fingimos indiferença para não demonstrar interesse. Demoramos propositalmente para responder. Provocamos ciúmes. Desaparecemos para testar se alguém vai procurar. Escondemos sentimentos por medo de parecermos vulneráveis.

Transformamos afeto em disputa de poder e depois culpamos o amor pela confusão.

A MULHER QUE NUNCA CONSEGUE ESCOLHER CERTO

Talvez nenhuma pessoa seja tão policiada nesse assunto quanto a mulher.

Se ela possui muitos relacionamentos, é julgada.

Se prefere se guardar, também.

Se deseja desesperadamente casar, dizem que é dependente.

Se não pretende casar, perguntam o que há de errado com ela.

Se quer cinco filhos, alguém perguntará se enlouqueceu.

Se não quer nenhum, será chamada de egoísta.

Parece existir um roteiro invisível segundo o qual a mulher precisa tomar exatamente as decisões que os outros consideram adequadas e, mesmo assim, provavelmente será criticada.

A cobrança pela maternidade é particularmente reveladora.

Uma mulher que diz não querer ser mãe frequentemente escuta que mudará de ideia, que ficará sozinha, que não conhecerá o "amor verdadeiro" ou que ninguém cuidará dela quando envelhecer.

Mas filhos não deveriam nascer com uma profissão previamente determinada: cuidar dos pais idosos.

Uma criança é uma pessoa, não um plano previdenciário afetivo.

Maternidade pode ser uma experiência extraordinária para a mulher que deseja vivê-la. Isso não significa que todas devam desejá-la.

Uma mulher pode possuir uma capacidade imensa de amar sem jamais gerar uma criança.

O útero não é termômetro de caráter.


E ENTÃO CHEGAMOS ÀS MULHERES QUE SOBREVIVERAM À VIOLÊNCIA

Existe ainda uma situação em que essa fiscalização social alcança níveis particularmente cruéis: a mulher que engravida em decorrência de violência sexual.

Antes de qualquer discussão moral, política ou religiosa, existe uma realidade que não deveria ser esquecida: ela foi vítima de um crime.

Ela não escolheu aquela violência.

Não provocou.

Não consentiu.

A responsabilidade pertence ao agressor.

Mesmo assim, não raramente a sociedade consegue encontrar uma maneira de colocar a mulher novamente no banco dos réus.

Se ela decide levar a gestação adiante e criar aquela criança, pode ouvir perguntas brutais:

"Como consegue amar uma criança concebida assim?"

A resposta pode ser muito simples: porque ela consegue distinguir a criança do criminoso.

O filho não é o estupro.

O filho não é o estuprador.

O filho não carrega culpa pelo crime cometido pelo pai biológico.

Existem mulheres que, depois de uma violência devastadora, escolhem criar seus filhos e os amam profundamente. Esse amor não diminui a gravidade da violência sofrida, não transforma o crime em algo bom e não significa gratidão pelo abuso.

Significa apenas que uma vítima pode olhar para uma criança inocente e recusar-se a atribuir a ela a culpa que pertence exclusivamente ao agressor.

Mas existe outra possibilidade igualmente dolorosa.

Uma mulher pode levar essa gestação adiante e concluir que não possui condições emocionais, familiares, econômicas ou pessoais para exercer a maternidade. Nesse caso, pode buscar os caminhos legais para a entrega voluntária para adoção.

E então ela também é julgada.

"Como conseguiu entregar o próprio filho?"

Perceba a armadilha.

Se cria, perguntam como consegue olhar para a criança.

Se entrega legalmente para adoção, perguntam como conseguiu abandoná-la.

Em qual cenário essa mulher recebe simplesmente o direito de ser tratada como ser humano?

A entrega voluntária legal para adoção não deveria ser confundida automaticamente com abandono. Em determinadas circunstâncias, reconhecer que outra família poderá oferecer àquela criança aquilo que a mãe não consegue oferecer pode ser uma decisão profundamente difícil e responsável.

Não cabe ao público transformar a dor particular dessa mulher em espetáculo moral.

Especialmente quando quem aponta o dedo não precisará acordar dentro da história que ela terá de viver.

CASAMENTO NÃO É A LINHA DE CHEGADA DA EXISTÊNCIA

Outra ideia precisa ser desmontada: a de que todo adulto saudável obrigatoriamente precisa desejar casamento.

Nem mesmo o cristianismo sustenta isso.

Em 1 Coríntios 7, Paulo trata explicitamente da condição de solteiro e apresenta possibilidades próprias dessa forma de vida. Dentro do catolicismo, a própria existência histórica de vocações celibatárias torna ainda mais evidente que casamento jamais foi considerado requisito universal para uma existência humana significativa.

Casamento pode ser bênção.

Mas casamento não é certificado de normalidade.

Há pessoas que desejam casar e constituir família. Há quem queira casar e não queira filhos. Há quem deseje filhos. Há quem não deseje casamento. E há quem simplesmente descubra que vive melhor sem relacionamento conjugal.

Isso também merece consideração quando falamos de pessoas autistas.

Não existe uma experiência afetiva universal do autismo. Alguns autistas desejam casamento, romance e filhos. Outros valorizam intensamente autonomia, rotina e solitude. Alguns querem companhia constante; outros precisam de grandes períodos sozinhos.

Há figuras históricas frequentemente apontadas retrospectivamente como possivelmente autistas que nunca se casaram, embora tais hipóteses devam ser tratadas com cautela porque não receberam diagnóstico segundo os critérios modernos.

O ponto não depende delas.

Uma pessoa não precisa de um cônjuge para provar que sabe viver.

Precisamos de vínculos humanos, mas casamento é apenas uma das formas possíveis de vínculo.

Uma pessoa solteira pode possuir família, amigos, comunidade, fé, trabalho, projetos, animais de companhia, vocação e uma rede de pessoas que ama.

Da mesma forma, alguém pode estar casado e sentir uma solidão esmagadora.

Estado civil não mede solidão.

TALVEZ O PROBLEMA NÃO SEJA A ESCOLHA

Existe uma pergunta que deveríamos fazer com mais frequência:

Por que a vida particular de alguém nos incomoda tanto quando ela não produz dano a nós?

Por que incomoda a mulher que não quer filhos?

Por que incomoda quem deseja cinco?

Por que incomoda quem não pretende casar?

Por que incomoda quem deseja casamento tradicional?

Por que incomoda alguém se guardar sexualmente?

Por que a decisão de outra pessoa precisa validar a nossa?

Nem toda crítica nasce de infelicidade pessoal. Seria intelectualmente desonesto afirmar isso. Algumas surgem de convicções religiosas, culturais, filosóficas ou familiares legítimas.

Mas existe, sim, um tipo de crítica que parece nascer da necessidade de confirmação.

Quando alguém vive de maneira completamente diferente e está em paz, sua existência pode provocar uma pergunta desconfortável naquele que seguiu determinado roteiro apenas porque disseram que deveria segui-lo:

"E se eu também pudesse ter escolhido?"

Pessoas realizadas não precisam transformar suas escolhas em algemas para os outros.

 O DIREITO DE DIZER NÃO

Talvez uma das manifestações mais esquecidas da liberdade contemporânea seja justamente a liberdade de recusar.

Não quero ficar com qualquer pessoa.

Não quero sexo casual.

Não quero relacionamento agora.

Não quero me casar.

Não quero ter filhos.

Quero me guardar.

Quero casamento.

Quero ser mãe.

Quero construir uma família grande.

Quero viver sozinha.

Quero dedicar minha vida à minha profissão.

Quero viver minha sexualidade segundo minha consciência e minha fé.

Algumas dessas escolhas são incompatíveis entre si, obviamente. E diferentes tradições religiosas e filosóficas avaliarão moralmente algumas delas de maneiras diferentes.

Mas existe uma diferença fundamental entre discordar de uma escolha e retirar a dignidade de quem escolheu.

O cristianismo pode afirmar convicções morais sem esquecer que está falando de seres humanos.

Cristo nunca precisou diminuir o valor de uma pessoa para afirmar a verdade.

NÃO FOI O AMOR QUE FICOU IMPOSSÍVEL

Talvez o amor continue relativamente simples em sua essência.

Nós é que complicamos tudo.

Queremos intimidade sem responsabilidade.

Companhia sem compromisso.

Prazer sem consequência.

Relacionamento sem vulnerabilidade.

Casamento sem renúncia.

Filhos sem sacrifício.

Liberdade sem responsabilidade.

E, algumas vezes, queremos ainda decidir como a pessoa ao lado deveria viver.

A sociedade que afirma "meu corpo, minhas escolhas" precisa ser intelectualmente coerente o suficiente para compreender que escolher limites também é escolher.

Dizer "não" também é liberdade.

Permanecer solteira também pode ser escolha.

Não desejar maternidade não elimina a feminilidade de ninguém.

Ser mãe não reduz uma mulher à maternidade.

Criar e amar um filho concebido em violência não transforma o agressor em inocente.

Entregar legalmente uma criança para adoção não autoriza desconhecidos a reduzir toda a história de uma mulher a uma palavra cruel.

E guardar a própria intimidade não transforma ninguém em relíquia de um século morto.

No fundo, talvez nosso maior problema não seja a banalização do sexo.

É algo anterior e muito mais grave:

banalizamos as pessoas.

Transformamos corpos em experiências, relações em entretenimento, filhos em obrigação social, casamento em certificado de sucesso e solteirice em diagnóstico.

Depois chamamos tudo isso de liberdade.

Liberdade de verdade deveria incluir algo muito mais difícil: permitir que outra pessoa construa uma vida diferente da nossa sem sentirmos a necessidade de puni-la por isso.

Porque amor não é obrigação.

Casamento não é troféu.

Maternidade não é dívida.

Solteirice não é doença.

Castidade não é vergonha.

Uma criança não é culpada pelos crimes de quem a concebeu.

E nenhuma mulher deveria precisar colocar sua vida inteira diante de um tribunal imaginário apenas para provar que merece respeito.

Talvez o amor não tenha ficado complicado.

Talvez nós tenhamos complicado tanto a existência que até respeitar a vida alheia passou a parecer revolucionário.

Kaily Yada



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