Sobre duas rodas e com apenas uma perna, ciclista ressignificou a vida após acidente trágico

Com apenas uma perna, ele se destacou no 3º Marathon Texas de Ciclismo, realizado em Dourados no último domingo (12).

| DOURADOSNEWS / JESSICA BEATRIZ


Gilvan durante uma das competições - Crédito: Arquivo Pessoal
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Um vídeo do ciclista Gilvan Pereira da Silva, de 39 anos, tem circulado nas redes sociais nos últimos dias e chamado a atenção dos internautas. Com apenas uma perna, ele se destacou no 3º Marathon Texas de Ciclismo, realizado em Dourados no último domingo (12).

Com mais de oito mil visualizações, o vídeo é narrado pelo Gigante MTB, página no Instagram com quase 30 mil seguidores. Estimulado com palavras de incentivo, Gilvan é filmado enquanto pedala incansavelmente até a linha de chegada, terminando em 3º lugar na competição.

Nascido em Sertânia (Pernambuco), Gilvan mora em Campo Grande desde os seis meses de vida, por isso se considera sul-mato-grossense de coração. E foi na cidade que tanto gosta que a sua vida mudou completamente há quase 13 anos, em um acidente de trânsito.

No dia 20 de agosto de 2010, por volta das 8h45, o motociclista seguia pela Avenida Júlio de Castilho, quando um carro fez uma conversão proibida a esquerda e o atingiu. “Na hora que cai minha reação foi levantar, ali percebi a gravidade e que iria perder a perna”, relembra.

Ele conta que o socorro chegou rápido e foi levado para a Santa Casa de Campo Grande com a pressão em 6 por 5, onde ficou internado por 11 dias, três deles em coma induzido. “Deus me deu uma segunda chance, agradeço muito por isso”, comenta.

Gilvan relata que de uma hora para outra teve a vida completamente mudada. “Antes podia fazer muitas coisas e no outro dia já não conseguia mais, mas o principal de tudo foi me aceitar como eu era. Isso foi a melhor coisa que fiz e ter a ajuda de amigos e familiares foi primordial”.

Antes do acidente, ele já era ligado ao esporte e corria cerca de sete quilômetros por dia e fazia academia, porém, o contato com a bicicleta, como esporte, ocorreu quase 10 anos após o atropelamento que marcou a sua vida.

Já sem a perna, o morador de Campo Grande conta que teve uma mercearia e começou a andar de bicicleta depois que o carro foi confiscado pelo banco devido a atrasos no pagamento. Para abastecer o estabelecimento, ele percorria cerca de 12 km, ida e volta, até três vezes na semana, com uma bicicleta aro 26.

O contato com a bicicleta só começou a ser visto como passatempo após conhecer Roberto, um amigo que morava no mesmo bairro. O primeiro dia em que saíram para pedalar foi em 27 de fevereiro de 2020, “depois desse dia não parei mais”, recorda.

Apesar de ter se adaptado, a bicicleta com aro 26 era pesada e exigia ainda mais esforço, foi então que, em 2021, o amigo Reginaldo e o grupo de ciclismo ‘Canela de Fogo’, ajudaram a fazer uma rifa para Gilvan adquirir uma bike aro 29, um pouco mais leve.

O ciclista conta que no começo pedalava usando a prótese, porém, transpirava demais e ela ficava caindo, então decidiu tentar apenas com uma perna, “fiquei uma semana treinando e graças a Deus deu super certo”, relembra. 

No começo, a intenção de Gilvan era apenas pedalar como 'hobby', porém, decidiu participar da primeira competição MTB (Mountain bike) no Piraputanga Adventure, em 2021, ficando em 3º lugar na categoria PcD (Pessoa com Deficiência), e não parou mais.

De lá para cá, o competidor que usa uma bicicleta sem nenhum tipo de adaptação especial por conta da sua deficiência, já participou de onze provas, geralmente realizadas em estradas de terra e trilhas, e levou 12 troféus para a casa. 

Para se preparar, o auxiliar administrativo treina cerca de duas vezes na semana, com percursos de 40 km. Já no domingo, ele pratica pedais mais longos, chegando a 100 km. Em 2022, bateu o seu próprio recorde, atingindo 140 km.

Sobre o equilíbrio para se manter em cima da bicicleta, Gilvan comenta que no começo teve um pouco de dificuldade, mas que trabalhou a mente e o corpo; além disso, ele relata que só caiu pedalando em algumas provas por conta dos terrenos irregulares e pedras, porém, nunca se machucou.

Competição em Dourados

Em Dourados, aproximadamente 350 atletas participaram da competição. Os ciclistas saíram da UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados) para três percursos. 

Na categoria Turismo, eles percorreram 30 km, na Sport foram 50 km, e na Pro a distância foram 70 km. A chegada também ocorreu na Universidade.

O atleta campo-grandensse de coração competiu com mais cinco pessoas na categoria PcD e ficou em terceiro lugar. Ele era o único dos competidores que não tinha uma das pernas.

Questionado sobre a sua maior dificuldade, disse que foi o trajeto de barro, cerca de 3 km, onde não conseguiu passar pedalando, nem pular, muito menos carregar a bicicleta porque estava muito pesada. Isso fez com que o atleta perdesse a segunda colocação.

“Ali pensei em desistir, tava muito pesado, não conseguia fazer mais nada. Passa muita coisa na cabeça, pensei vou pegar o quinto lugar. Aí eu pensei, sou forte o bastante, vou tentar e Deus seja meu guia”, comentou ao conseguir superar o desafio. 

Sobre metas futuras, o atleta diz que quer participar de competições paralímpicas de ciclismo representando Mato Grosso do Sul. 

Perguntado sobre os benefícios do esporte, Gilvan afirma, “ganhei qualidade de vida, saúde e ainda consegui mostrar que não devemos baixar a nossa cabeça para nossos problemas. As dificuldades são pequenas para quem quer vencer na vida”.

*Foto interna I: Troféus conquistados por Gilvan.

*Foto interna II: Gilvan no pódio da competição de Dourados.

Veja o vídeo de Gilvan durante prova em Dourados abaixo:

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