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Júlio Baptista diz que Brasil precisa se adaptar ao futebol e proíbe celular e palavrões no São Paulo
Agora técnico, ex-meio-campista proíbe celular e palavrão no sub-20 do São Paulo e conta detalhes de como foi jogar e conviver com os Galácticos do Real Madrid: "Era uma loucura"
| GLOBOESPORTE.COM / BRUNO CASSUCCI, BRUNO GIUFRIDA E ULISSES LOPRESTI
Júlio Baptista se define como um técnico "situacional", que se molda de acordo com as circunstâncias e necessidades. Porém, basta pouco tempo de conversa com o comandante do São Paulo sub-20 para perceber que ele faz o estilo linha-dura. Proibiu palavrões, limitou o uso de celular e nem sequer abriu brecha para diálogo com pais de jogadores.
Em entrevista ao Abre Aspas, o ex-meio-campista/centroavante detalhou seus conceitos e preferências, falou dos planos para a carreira e analisou o cenário do futebol brasileira e do mercado em que está inserido.
– Eu acho que o treinador brasileiro perdeu espaço a partir do momento que não se atualizou – opinou.
Ficha Técnica
Nome: Júlio César Pereira BaptistaIdade: 1/10/1981 (44 anos)Clubes como jogador: São Paulo, Sevilla, Real Madrid, Arsenal, Roma, Málaga, Cruzeiro, Orlando City e ClujTítulos: Torneio Rio-São Paulo (2001), Supercampeonato Paulista (2002), Campeonato Espanhol (2007-08), Campeonato Mineiro (2014) e Campeonato Brasileiro (2013 e 2014)Pela Seleção: 48 jogos, cinco gols, e bicampeão da Copa das Confederações (2005 e 2009) e da Copa América (2004 e 2007)Como treinador: Valladolid B e São Paulo sub-20
Embora meça as palavras para evitar polêmicas, Júlio Baptista também apontou uma falta de entendimento que prejudicou a carreira de Neymar e criticou a postura brasileira na eliminação para a Noruega na última Copa do Mundo.
– A gente não pode abdicar nunca de ter a bola, de sufocar o rival, de querer a todo momento fazer gol.
Em cerca de uma hora e meia de conversa, ele também repassou a carreira com jogador, do glamour do Real Madrid galáctico à frustração da aposentadoria na Romênia.
Abre Aspas: Júlio Baptista
Como tem sido a experiência como treinador? – Sempre vai ser desafiador. Quando começa, você imagina algumas coisas, logo existe uma aventura, tem a preparação. Eu acho que ter sido jogador ajuda bastante a ter muita ideia, saber os bastidores, o que é um vestiário, jogar com jogadores de alto nível, treinadores bons, mas eu acho que a preparação é muito importante. Eu tive uma preparação muito boa, me formei com o curso da UEFA Pro na Espanha, acredito que é um dos melhores cursos de preparação para um treinador.
O conhecimento acadêmico e a bagagem como jogador podem ajudar, mas tem coisas que se aprende somente na prática, não é? – É, não tem jeito. O dia a dia te molda, ele te ajuda. Eu me lembro do primeiro dia em que fiquei na frente dos meninos. Eu tive, graças a Deus, uma experiência de cinco anos num clube, o Valladolid, (que era) do Ronaldo. Para mim, foi uma grandíssima aprendizagem, me ajudou a crescer, a ser melhor organizador, melhor treinador. Dentro da tua organização e daquilo que acredita como treinador, você vai se moldando, melhorando certas coisas e vai se aproximando daquilo que realmente quer ser, da forma como quer atuar com os jogadores, como quer liderar as pessoas que estão à sua volta. A função do treinador deixou de ser só uma coisa, hoje o treinador é multifacetado, faz muito mais coisa, tem que abarcar muito mais campo e delegar também. Acho que é importante. O conhecer e o saber delegar são muito importantes para o líder.
Como é seu estilo de liderança, como se relaciona com os jogadores? – Acredito que o treinador atual tem que ser situacional, de cada situação. Porque em certos momentos você tem que ser autoritário, mas em certos momentos tem que ser pai. Em certos momentos tem que ser organizador, então vai modificando. Acho que no mundo atual é muito importante, sobretudo trabalhando com jovens. Acredito que os jovens brasileiros são um pouquinho diferentes dos jovens espanhóis, do jovem europeu, que têm um pouco mais de educação.
– O fato de eu ser um pouco mais disciplinador ajuda bastante. Eu sou bem exigente, bem duro com os meninos. Mas aí depois, com o tempo, eles vão vendo que é tudo para o bem deles, tudo que eu falo acaba acontecendo, eles começam a progredir e a ver que faz sentido tudo aquilo que eu explico. Acho que o importante é a conexão. Eu sou uma pessoa como sou na minha casa. A única coisa é que com os meninos às vezes tem que ser um pouquinho mais duro em certa parte, mas acho que essa conexão tem que existir e ela facilita e ajuda muito no dia a dia.
Você falou que o jogador brasileiro é diferente do espanhol. Gostaria que explicasse melhor. É pela questão comportamental? – Comportamental e educacional. Acredito que a parte educacional é importante que logo se pode ajustar, como ajustei também no São Paulo, mas cheguei também com problemas, sobretudo de telefone, de comportamento e aí, pouco a pouco, fui ajustando, impondo certa disciplina para que os jogadores entendessem que existem normas, as normas são cumpridas e, se não se cumprem, isso tem consequências. Isso é muito importante a gente colocar porque o jogador está sempre te testando, né? E quando você realmente consegue colocar limites, o jogador fala: "opa, é até aqui, se eu passar daqui eu tenho um problema, eu não jogo". E o castigo realmente sempre vai ser o não jogar. Então acho que isso é muito importante para que o reconhecimento deles. E aí é o que eu sempre falo: o respeito deles para conosco, deles para com eles mesmo.
– Uma das coisas que eu limei, nem acho produtivo, foi palavrão no treinamento, porque não adianta nada um jogador pegar e xingar o outro, não está ajudando e nem orientando o companheiro. Eu oriento e, se eu tiver que dar uma bronca, dou uma bronca como companheiro, mas orientando para que ele faça melhor. Isso sim é orientar, educar. Por isso acredito que tem métodos muito mais eficazes que fazem mais sentido do que outros de 15, 20 anos atrás, que hoje já não fazem sentido porque a gente vive também numa outra geração, com meninos de 20 anos que têm uma mentalidade totalmente diferente. A gente precisa se conectar com eles. Se a gente não consegue se conectar, existe uma distância muito grande, e aí não consegue tirar o melhor de cada um deles.
Pode contar mais desse veto ao uso de celular? – Eu tive que proibir. Eu sou muito simples, mas quando vejo certas coisas que não funcionam, cheguei e falei pra eles assim: "vão existir coisas que nós vamos construir juntos, porque acredito que vocês têm que opinar, mas vão ter coisas que vou decidir de forma unilateral porque acredito que é importante para o grupo". E aí foi onde eu atuei proibindo o telefone nos horários de café da manhã, almoço, jantar quando a gente viaja, preleção ou horário de quando eles vão para o campo.
– Eles entenderam. No princípio, foi um choque, porque tinha jogador que esquecia, colocava o telefone por aqui (no calção), entrava com ele... A gente tem um quiosque (no CT), que eles vão deixar as coisas e entravam com o telefone. E até que um dia eu falei que se visse qualquer jogador com o telefone ele não ia treinar. Então aí eles começam a ver que tem consequências. Chegou tarde, um dia antes do jogo, fica fora. Ou, se está no banco, não viaja. Essas consequências que você vai colocando para os jogadores, eles vão sentindo e falam: "caramba, eu não posso falhar". Você vai gerando no jogador uma consciência, que eu acho importante, e essa consciência vai ajudando e moldando o grupo.
Essa proibição foi porque você percebeu que aquilo era uma distração? – Sim. Logo na hora do aquecimento, em vários exercícios que eles já deveriam estar ativos e com atenção, às vezes demorava para eles entenderem o exercício, demorando até oito, dez minutos. Querendo ou não, se você está com o telefone 20 minutos antes do treinamento, quando você chega lá, não vai ter a atenção requerida. Eu falei assim: "se vocês querem realmente chegar na profissão de futebol, guardem o telefone, pegue somente quando terminarem de almoçar, quando forem para o seu quarto. Aqui são quatro horas, cinco horas que a gente fica junto, esse horário, esse período dediquem a nós, ao que vocês vão aprender, que vai fazer diferença". Aqueles que escutarem vão ter mais facilidade, aqueles que não escutarem vão ter um pouco mais de dificuldade.
Estamos falando da base, mas o uso do celular também é debatido entre os jogadores profissionais. Tem o peso das críticas, da repercussão nas redes sociais... Qual a sua visão sobre o assunto? – Eu acho que o jogador inteligente é aquele que dá bom uso ao telefone. Como dizia um treinador meu, Joaquin Caparrós, quando as coisas iam muito bem, ele falava: "estão te dando muito açúcar". O que isso queria dizer? Que o jogador gosta de se sentir afagado, mas quando chega a crítica, ninguém gosta. O importante é existir um equilíbrio. O jogador não deve ficar olhando quando ele está muito bem e também não tem que ficar olhando tanto quando está indo mal. O que ele tem que enxergar é se o que o treinador pede ele está conseguindo desenvolver. Essa é a coisa mais importante. Se ele conseguir fazer isso e se abstrair de todas as outras coisas que estão fora, a tendência é que as coisas funcionem melhor. Hoje a gente tem muito mais informação do que existia há 15, 20 anos. Quanto mais eles permanecerem nas telas, vão estar mais expostos. Quanto menos, menos exposição.
Vamos falar de outro impacto da tecnologia. Por conta das redes sociais, muitos jovens já são conhecidos da torcida antes mesmo de estrear no profissional. Como essa exposição atrapalha na formação do jogador? – Acho que muito. Cria-se um entorno e uma realidade totalmente diferente da que o jogador precisa de verdade. O jogador acaba sentindo que ele está numa outra fase, que talvez seja alguma coisa que ele ainda não é. E isso prejudica na aprendizagem, ele é um jogador em progressão e está achando que já é um craque. Tudo isso vai confundir o jogador até ele tomar um choque de realidade com certas decisões do treinador. É importante o fator familiar, de colocar os pés no chão do menino, de fazer com que ele seja humilde, que ele se esforce, que ele tente estar muito mais desse lado de cá, para poder chegar, do que desse lado dos holofotes, porque esse lado é o da desconcentração, é o lado que te tira, que faz você ficar muito mais longe do seu objetivo. Quando o jogador está muito mais próximo do outro lado, fica muito mais fácil.
Deve ser um desafio para quem trabalha com base identificar e corrigir tais posturas. – Eu acho que você percebe. A gente que jogou tem um certo feeling de tudo do jogador. Quando ele chega bem, você sente. Quando o jogador tem distração, o rendimento cai. Aí você tem que chamar para conversar e falar: "olha, teu rendimento caiu. Por isso você não tá jogando. Ou você muda o teu comportamento ou você vai continuar ficando no banco. É isso que você quer?". Então por que você não muda o comportamento? Você vai jogando com essas coisas, vai ensinando e aí vai modificando. O jogador começa (a pensar): "pô, me esforço no treinamento, os treinamentos me inspiram para o jogo. Se eu estou preparado para o treino, estou muito preparado para o jogo". Eu acredito muito no treinamento.
Imagino que você carregue um pouco de cada treinador com quem trabalhou como jogador. Tem algum que te inspire mais? – Eu acho que é um pouco de tudo, porque cada treinador é importante em um certo momento, né? Por exemplo, aqui no Brasil eu tive o Oswaldo de Oliveira, que foi incrível, o Vadão, que em paz descanse, Levir Culpi. Um treinador muito importante para minha carreira foi o Pita, porque foi o primeiro que modificou minha posição quando eu perdi um pouco de espaço no São Paulo e até estava para ser mandado embora. Ele modificou a posição e daí comecei a voltar, a progredir e comecei a ser titular de novo. E o Joaquín Caparrós, na Espanha, quando eu cheguei ao Sevilla. Para mim, ele foi um treinador muito importante porque foi o outro que me modificou outra vez de posição, me utilizando como um meia, identificando as necessidades do time que ele tinha e as características que eu poderia dar. Acho que isso é muito importante, quando o treinador consegue visualizar no jogador uma coisa que é necessidade e fazer com que esse jogador consiga dar alguma coisa a mais, se tornando mais importante até do que era em uma outra posição.
– Ao longo da carreira tive Arsène Wenger, tive Manoel Pellegrini, tive outros treinadores, todos eles com uma certa característica diferente, o Dunga na seleção brasileira... Todos eles vão te moldando e te guiando até quando você termina, lógico. O que eu penso é: não quero ser como um ou como outro, eu quero ter a minha característica, mas claro, você leva certas coisas que o Dunga acabou fazendo que eu acho que me identifico, ou que o Arsène fazia e que me identifico. Todas essas coisas ajudam bastante.
Num cenário ideal, como joga seu time? Quais características você busca para as suas equipes? – Por vir da escola espanhola, de ter a posse de bola, de não deixar o rival jogar, eu gosto de jogar bem alto da minha área, gosto de ter o controle do jogo. Acho que o time que tem o controle do jogo consegue fazer com que os jogadores tenham um entendimento melhor. Cada um tem a sua forma de gostar de jogar, alguns treinadores gostam de transitar, eu prefiro mais ter o controle porque acho que viajar dentro do controle do jogo dá mais possibilidades, um time muito mais coeso consegue fazer várias facetas e controla melhor esse jogo. Ele pode transitar, pode controlar o jogo em certos momentos e isso ajuda muito um time a conquistar títulos, a chegar mais longe, o desgaste físico e mental é menor.
– Isso é uma coisa importante, porque muitas vezes a gente não pensa nisso quando é jogador, mas quando você passa para o outro lado, de treinador, faz diferença, o lado mental é muito importante. Teve jogos, por exemplo, no Campeonato Brasileiro, que o nosso time não teve tanto controle e foi um jogo de muito mais transição. O time se mostrou competitivo, mas não teve tanto controle do jogo e o desgaste mental e físico foi maior. Em outros jogos que o time teve controle, o desgaste físico e mental foi menor. Isso ao longo da temporada é muito melhor porque você vai ter um jogador muito menos desgastado.
O trabalho com categorias de base traz ainda mais especificidades e cuidados que vão além do campo? – Eu senti na minha chegada no Brasil que existe uma necessidade muito grande em resultado. Quando a gente fala em resultado, esquece o mais importante, que é a organização, a planificação. É totalmente diferente do que acontece na Europa, (na base) a parte mais importante é que o jogador chegue preparado para a parte profissional. E o fato de o calendário do sub-20 ter quase 70 jogos, no meu ponto de vista, é prejudicial porque acho que tem que existir o treino. O treino é uma preparação para a parte do saber jogar, mas se você tem uma frequência de jogos tão alta, perde qualidade no que é mais importante, o ensinar e aprender. Eu acho que se deveria revisar a quantidade de jogos, porque o mais importante é que o jogador consiga chegar numa parte profissional melhor preparado. E não com uma quantidade de jogos tão excessiva. Muitas vezes acontecem lesões, quase a maioria dos times tem que ter 30 ou 30 e poucos jogadores. Não vejo tanto sentido nisso, até mesmo olhando um pouco as ligas de outros países.
O Elano participou do Abre Aspas recentemente e apontou dois desafios no trabalho de base: a interferência política nos clubes e a relação com os pais dos atletas, que podem tanto ajudar quanto atrapalhar no desenvolvimento. Como você enxerga essas duas questões? – Eu tenho uma visão muito clara e a visão clara sobre isso é o treinamento. O jogador, quando ele performa no treinamento, é visível. E o jogador que não performa no treinamento, ele não deve jogar. É simples.
Mas é difícil para o técnico lidar com os pais ou para você é tranquilo? – Não tenho contato nenhum com os pais. Eu vou, faço meu trabalho, entro, saio, meu contato é somente com os jogadores. Cumprimento os pais, nunca vou conversar uma palavra com nenhum pai de jogador, porque nenhum tem uma formação adequada para falar de futebol. Os pais estão ali para incentivar os seus filhos, nada mais que isso. Acho que se eles entenderem o papel deles, estão fazendo muito bem para os seus filhos. Se eles começarem a querer, "você não tem que fazer isso, você tem que fazer aquele outro, você tem que fazer aquilo", eles estão prejudicando os seus filhos.
Você já lidou com algo que incomodou? – Não, porque no nosso CT, os pais estão do outro lado, então praticamente eu não escuto nada. Minha voz se escuta muito. É uma voz muito potente, mas assim, nós treinamos de uma forma na qual o jogador praticamente não precisa de nada. Ele sabe o que tem que desenvolver. Ele sabe o que ele tem que fazer no jogo. A gente tem uma preparação de uma semana inteira. E a gente tem uma forma, um modelo de jogar. Por mais que o pai fale, não vai influenciar em nada.
Estou com a impressão de que você é um técnico muito linha-dura. Você é assim mesmo no dia a dia? – Não, sou quando tem que ser. Quando o jogador acredita que está muito próximo do treinador, o treinador não está tão próximo assim como ele acreditava que estava. Esse é o ponto adequado. Até mesmo para o respeito, para como eles entenderem as coisas, tanto isso funciona no ângulo com meninos sub-20, também com jogadores profissionais.
Como foi a negociação para voltar ao São Paulo? – Ela aconteceu de forma genuína, em nenhum momento pensava. Às vezes a gente sente necessidade e a única coisa é que, sim, eu não estava feliz na Espanha. E começou a existir a possibilidade de voltar para o São Paulo. Tanto é que nem era para a categoria onde eu estou. Era para o sub-17. E tanto é que eu aceitei.
– Eu não estava preocupado com era o sub-20 ou o sub-17. Eu estava preocupado em voltar e ajudar o São Paulo. Talvez com essa minha preparação eu possa ajudar a talvez reconstruir um pouquinho o que ele teve no passado, certas coisas que talvez foram deixadas no caminho, reconectar esses pilares que sempre levaram o São Paulo a um ponto que as pessoas se sentiram orgulhosas.
– Talvez essa reconexão de fazer os jogadores sentirem mais a camisa e os torcedores mais identificados com os jogadores. Acho que isso é importante e eu venho nessa missão. Talvez seja difícil, mas vou tentar essa união.
A crise vivida pelo clube te deixou em dúvida quando veio a proposta? – Não. No momento em que recebi, eu já sabia que era o meu momento de voltar.
Essa instabilidade que a gente vê, principalmente na área política do clube, reflete no seu dia a dia de trabalho? – Não, em momento nenhum. Se entrar um outro presidente e não quiser meu trabalho, sei que eu fiz um grande trabalho. Eu sei que vou fazer um grande trabalho e entregar os jogadores melhores do que estavam quando eu peguei.
E os jogadores não se conectam a esses problemas? – Não, acho que a gente se abstrai e está um pouco por fora. Eu tento pelo menos.
Você falou sobre resgatar pilares do São Paulo. O que ficou no caminho desde que você saiu até seu retorno? O que está faltando? – É isso mesmo que eu falei. Talvez... Ser muito mais incisivo com os atletas, sobretudo os que vêm da base, onde eles estão, que clube eles estão, que é um clube de muita tradição, deles tentarem se reconectar muito com o clube, para estarem muito mais próximos da torcida, existir essa (relação) que existia antes. Até para o torcedor é difícil porque a gente vive num mundo onde tem muita informação e às vezes o torcedor acredita que o jogador é mercenário e só está aqui pelo dinheiro. O jogador pode gostar de onde está, pode ter amor por onde ele passa, por aquele momento, e a única coisa que a gente tem é que potencializar isso.
Por que muitos jogadores da sua geração optaram por não continuarem no futebol depois da aposentadoria dos campos? – Como dizem amigos meus, para virar treinador tem que ser um pouco maluco, tem que gostar demais. Mas eu gosto muito do fato de estar em contato com os jogadores, de estar no verde, de estar respirando o futebol, competir e ajudar. A gente fala sempre do jogador, mas por trás do jogador está a pessoa. E eu acho que quando a gente consegue ir um pouco mais profundo e ajudar a pessoa primeiro, a gente está conseguindo ajudar o jogador. A função do treinador não só é com os jogadores, é também de educar, de fazer com que eles iniciem um processo e terminem de forma totalmente diferente a nível educativo, de entendimento, e acho que para a vida deles vai ajudar muito.
– Sobre por que outros jogadores não quiseram seguir, eu acho que é uma coisa muito pessoal. A gente se dedicou mais de 20 anos jogando, e tem jogadores que não querem se dedicar mais, não podem nem ver futebol, não querem ver futebol, não querem falar de futebol e preferem ir para uma área realmente de tranquilidade. E por isso eu acredito que nós, brasileiros, não temos tantos treinadores que tiveram formação, tem poucos aí. Que eu lembro que tiveram na Europa, fizeram o curso da UEFA, acho que foram o Belletti, o Sylvinho e o Mancini. Não me lembro de outros treinadores que fizeram esse curso. Aqui no Brasil com certeza outros treinadores estão fazendo e acho que é bom acontecer isso, ter uma nova geração vindo com novos pensamentos, com uma nova forma de ajudar o futebol brasileiro a poder ser guiado.
Em termos de estrutura, o que encontrou no São Paulo? Há defasagem em relação ao que você tinha na Espanha? – Não, o futebol brasileiro sempre esteve bem avançado. Na parte de fisiologia, fisioterapia, nós sempre fomos muito avançados em como tratar o jogador. Hoje eu encontro o São Paulo com uma estrutura grande. Os atletas têm um acompanhamento psicológico, com nutricionista. Eu até dou risada, porque mesmo tendo tanta informação, eles acabam saindo dessa (disciplina), porque é o que eles são acostumados. Aí vai na cidade com um amigo, o amigo quer comer besteira, acaba comendo besteira. Mas faz parte também da idade. Eu fui jovem, todos nós fomos jovens, temos que entender que é um processo. Quanto mais vai ficando próximo do profissional, o jogador vai tendo essa consciência, vai entendendo que quanto mais ele não se cuidar, a performance dele vai ser pior. Quando começa a existir uma consciência maior do jogador, a performance dele começa a ser melhor. Tem jogadores que amadurecem mais rápido, isso também é uma coisa importante. Tem jogadores que demoram mais para crescer e tem uns que só crescem às vezes na base da porrada de verdade.
Como você era nessa fase? Também dava suas escapadas? – Não, porque eu era de São Paulo. Eu morava na Vila Sônia, ia de bicicleta para o treino, às vezes de ônibus, então estava muito próximo do São Paulo. Só que eu era extremamente focado. Eu comia bem, treinava, me esforçava mais, sabia que tinha carências. Então, por saber certas carências, eu ficava mais dentro do campo do que outros jogadores que tinham mais talento do que eu. Isso me fez ser mais resiliente, estar mais preparado. Quando realmente a oportunidade me foi dada, eu estava mais preparado. Eu posso dizer que a educação que tive na casa do meu avô, ela me ajudou muito. Foi uma educação muito mais rígida e isso me ajudou a conseguir chegar ao meu sonho.
A Espanha foi campeã com um meio de campo muito forte. Enquanto isso, o Brasil tinha muitos atacantes, mas quase nenhum meia na hora que precisou. Você vê isso como um problema de formação de base no Brasil? É possível corrigir isso no curto prazo? – Não, eu acho que nós temos o mais importante, que é a matéria-prima. Temos jogadores de muitos talentos e tenho certeza que há grandes treinadores no Brasil. Jogamos com vários times no Campeonato Brasileiro, agora no Paulista Sub-20 e existem treinadores bons que conseguem elaborar bons trabalhos. Às vezes acaba até vendo os jogos melhores no sub-20, com mais detalhes, do que no profissional.
– Eu penso um pouco diferente, porque acabei jogando em um time muito grande, como o Real Madrid. Tenho um pensamento que eu posso perder, mas vou perder como eu quero. Eu tenho uma linha de trabalho, uma forma de pensar, e meu time vai jogar dessa forma. Eu acho que isso é importante, porque quando a situação é ruim, todo mundo tende a fazer certas coisas que não faz. Isso é prejudicial porque você cria muita confusão na cabeça do jogador. Hoje você joga no 4-3-3, amanhã você está perdendo e já começa 4-4-2, depois 5-3-2, 5-4-1. Isso causa uma confusão muito grande na cabeça do jogador. Eu acredito muito numa linha na qual ela não vai sair disso. A gente joga assim, a gente defende assim, e se a gente perder, a gente estende a mão para o rival porque ele foi melhor que nós. Eu acho que isso é muito importante e fará a gente crescer no futebol brasileiro.
– A gente, por muito tempo, ficou navegando no "somos a melhor seleção, cinco vezes campeão" e paramos de entender o futebol de uma certa forma. A Europa começou a se estruturar de uma outra forma e introduziu a metodologia de treinamento no futebol. Isso é uma mudança muito grande porque, quando entra a ciência dentro do futebol com a metodologia, ela muda completamente a forma de treinar. Se você não treina de uma forma metodológica, que tem uma progressão concreta, é muito difícil que o jogador possa ter uma progressão.
Mas nessa questão específica da ausência de meias e de laterais, você entende que é uma coisa que está na base, está às vezes até no mercado, na forma que os clubes se estruturam, porque um ponta vale mais do que um lateral... – Eu acho que é um pouco na forma de jogar. Se analisa sub-17, sub-15, você vê jogos de muita transição, ou seja, jogos de pouco controle, pouco conhecimento de futebol. Se o time não tem controle, não tem conhecimento. Eu acredito que um time que controla o jogo, ele tem controle de alturas, ele sabe atrair o rival, ele sabe quando o rival está vindo pressionar, existe espaço que ele vai aproveitar nas costas do rival. Toda essa interpretação, ela se cria treinando, ela se cria trabalhando. Quando só existe uma forma de jogar, que é defendendo, eu defendo e eu vou transitar rápido. Então você está tirando a inteligência do jogador.
Se vou transitar rápido, eu não preciso talvez ter um camisa 10, é melhor ter dois pontas que vão me dar essa velocidade, é isso? Daí viria também a dificuldade de encontrar um camisa 5, mais criativo, como a Espanha tem em maior quantidade? – Não, porque eu tenho no São Paulo. Tenho jogadores que, quando eu cheguei, identifiquei que tinham talento de como se posicionar, como se perfilar para receber a bola, e logo a gente vai moldando isso, ajudando a interpretação do jogador. A repetição sistêmica ajuda com que o jogador faça isso sem pensar. Ao fazer tantas vezes eu não preciso corrigir dentro do jogo, corrijo dentro do treinamento. Tantas vezes que quando chegar no jogo eu não preciso corrigir, porque o jogador vai saber como ele tem que entrar para controlar uma bola, vai saber como tem que entrar se a bola está vindo da direita ou esquerda, ele tem que estar perfilado com o quadril aberto para a bola entrar no pé esquerdo, não no pé direito. Todas essas coisas facilitam para o jogador, só que o jogador não conhece isso, a gente tem que dar esse conhecimento.
Dá para dizer que esse jogo de transição é uma ideologia do futebol brasileiro ou está condicionada ao pouco tempo de treinamento e cobrança por resultado? – Não, porque quando voltei ao Brasil, eu voltei ao Cruzeiro, e era um time totalmente de jogar (com a posse), fomos bicampeões brasileiros, era um time que jogava muito com a bola, de forma posicional. Então, não é isso. Nós podemos demonstrar que durante dois anos fomos o melhor time porque tínhamos mais a posse de bola, chegávamos mais para finalizar, os times não finalizavam tanto na gente. Quando você começa a analisar, dentro de um time, pode haver duas características: controle do jogo e saber transitar muito bem. Esse é um time completo que vai machucar seus rivais porque ele controla as fases do jogo. Acho que o bonito do jogo é que não existe uma única forma de jogar. A mais importante é que o treinador consiga passar de forma ótima para os seus jogadores. Se é transitar e transitar com qualidade, não tem problema nenhum.
O que você acha que o Brasil tem que beber na fonte espanhola e o que talvez a gente tenha que buscar nas nossas próprias raízes? – Eu escuto muito as pessoas falarem que nós não temos que nos adaptar, que não temos que jogar igual a ninguém. Eu acho que o Brasil tem uma característica, os seus jogadores têm uma característica. Mas a gente precisa se adaptar ao futebol moderno, porque eu preciso ensinar o jogador que, quando ele tem uma vantagem posicional ou numérica, ele está atacando quatro contra três e dá um chapéu pra trás, ele está eliminando essa possibilidade de atacar. E muitas vezes, não se ensina isso.
– Isso é uma coisa muito importante no futebol. Eu tenho superioridade numérica, tenho que atacar porque o meu rival está desorganizado. Não me explique como, vocês têm que atacar rápido e em velocidade. O time está estruturado, jogo posicional, no meu modo de ver, tentar desestruturar, desestabilizar o rival para encontrar os espaços deixados, que eu vou criar com o meu jogo.
Em termos estruturais, tem algo que a gente possa se inspirar da Espanha, trazer para a nossa realidade? – O jogador brasileiro tem muito talento. E a nível físico, talvez os melhores jogadores, muito comparados com africanos, italianos, que são muito fortes fisicamente. Mas a questão não é copiar, é se adaptar ao mundo moderno. Eu não tenho que jogar igual a ninguém, mas preciso ter uma base para fazer o meu time jogar bem e logo os jogadores têm o conhecimento de jogo. Eu acho que o mais importante é dar esse conhecimento de jogo, para o jogador saber o que fazer.
– Existem muitos treinamentos em que eu não preciso falar que o jogador tem que dar dois toques porque os espaços são tão reduzidos que se ele não dá dois toques, não consegue treinar. Faço isso porque eu quero modificar um comportamento, mas existem outros treinamentos que o jogador vai ter que dar três toques e outro treinamento que vai ter que dar cinco. Quem detém essa interpretação é o jogador. O treinador não joga. A única coisa que a gente faz é dar essa inteligência, de ele estar visualizando uma coisa e ter a tomada decisão. Estou muito de acordo com o Arsène Wenger: os craques, os fenômenos, eles têm, quando a bola chega, dez possibilidades reais de resolução de jogo. Um craque, um jogador bom, tem sete ou oito. Um jogador normal, tem quatro. Um jogador muito normal, tem dois .Então, o ponto fundamental do jogo é a tomada de decisão, a parte mais fundamental.
Como que você viu o desempenho recente do Neymar, não só na Seleção, mas também no Santos? Como você vê as tomadas de decisão dele? – A vida de jogador não é fácil. Acho que quando o jogador chega num estágio ou num patamar que o Neymar chegou, ela é mais difícil ainda. As pessoas não têm noção do que é. Jogar futebol para nós sempre foi um sonho, a nossa paixão e sempre será. Só que essa paixão, esse querer, esse gostar de jogar futebol, você perde a sua liberdade, não tem preço para isso. Você não poder ir num shopping, não pode levar seus filhos, não poder fazer praticamente nada, é muito doloroso. Quando o jogador começa a decidir, tomar decisões de estar mais próximo da família, porque o jogador também está a nível mental, ele está cansado, porque se doou muito.
– Às vezes o que as pessoas têm que entender é que o futebol não se joga sozinho. O futebol é coletivo. Por mais que eu joguei no Madrid dos Galácticos, a gente não conseguiu ganhar nenhum título. Por quê? Tinha que acontecer daquela forma, talvez porque naquele momento nós não tínhamos um grande treinador para liderar, aqueles jogadores que estavam naquele momento. O jogador sempre vai querer dar o seu melhor, mas ele precisa de um time que funcione também. Se não funcionar, por mais que ele seja um grandíssimo jogador, ele não vai conseguir dar o melhor dele. A Argentina só foi campeã quando entendeu que tinha que jogar para o Messi.
Faltou ao Brasil entender que tinha que jogar para o Neymar? – Eu acho que nós estivemos muito próximos de ganhar a Copa do Mundo aqui no Brasil (em 2014), quando o Neymar sofreu aquela lesão. Eu acho que ele estava no "prime" de jogo, de nível mental. Foi uma fatalidade tremenda, porque o Brasil vinha muito bem, ele vinha muito bem e depois o Brasil ficou apático e acabou tendo aquela fatalidade (derrota por 7 a 1 para a Alemanha). Mas são coisas que acontecem, né? Ele, que é um jogador muito driblador, também em um determinado momento não entendeu e começou a jogar muito mais longe da área, o que permitiu levar muito mais porrada e ter lesões muito mais graves. Então, assim, solta essa bola um pouquinho mais rápido, coisa que o Messi fazia, vinha elaborar o jogo. Mas tudo isso vem pelo que eu falei, o entendimento do jogo. O Messi vinha buscar o jogo, mas ele entregava para logo buscar numa posição que lhe permitia estar mais próximo da área, muito mais protegido, tomar muito menos porrada. Todas essas coisas fazem diferença na carreira do jogador.
O Brasil foi muito criticado não só pelo resultado na Copa, mas também pela forma como jogou, abrindo mão da posse, sem ser propositivo. Como você avalia o momento da Seleção Brasileira? – O Carlo (Ancelotti) é um um grandíssimo treinador, ele pegou um trabalho na metade. Não é fácil o trabalho de treinador porque você tem pouco tempo para construir, e nós tivemos a fatalidade que muitos jogadores próximos à Copa do Mundo se machucaram, muita relevância. Isso faz com que você perca um pouco de qualidade e também no modelo, na forma como joga, ela vai ser modificada. Sendo a nossa Seleção, a gente não pode abdicar nunca de ter a bola, de sufocar o rival, de querer a todo momento fazer gol. Isso é o nosso DNA, tem que sempre estar, foi assim que nós conquistamos os cinco títulos do mundo, é assim que deveria ser.
Entre tantas versões que você teve como jogador, em diferentes posições e clubes pelos quais você passou, qual foi a melhor versão do Júlio Batista? – Eu acho que quando saio daqui para o Sevilla, a minha versão que me faz chegar ao Real Madrid é a melhor da minha carreira. Eu perco uma Bota de Ouro para o Ronaldo, faço 50 gols em dois anos e realmente ali na Europa eu começo a ser conhecido como um jogador de referência, também para o meu clube. Fazia mais de 25 anos que não classificava para a Europa League, no meu primeiro ano nós conseguimos. São muitos pontos relevantes que aconteceram que me fazem acreditar e pensar que ali foi o meu ponto mais importante. Ainda que logo tenha o Real Madrid, que é a consequência disso, jogar no maior clube com os melhores jogadores também é uma coisa indescritível, mas acredito que o melhor ponto foi no Sevilla mesmo.
Você chega num Real Madrid que estava bagunçado. Já era o fim da era dos Galácticos, com o Barcelona em um grande momento... – Tanto é que depois a gente acaba sendo campeão no ano seguinte, né? Com muitos pontos na frente do Barcelona. O gostoso de jogar em um clube muito grande é que é bom quando você está ganhando, mas quando você está perdendo é um terremoto. Mas é muito bom, muito gostoso, porque você joga ao lado de grandes jogadores, a qualidade é altíssima. Quando não decide um, decide o outro. É
Como foi conviver com tantos craques? – É incrível, porque eu chego jovem, com 25 anos, e a gente estava com Zidane, que já tinha sido o melhor do mundo, Ronaldo, o melhor do mundo, Roberto Carlos, o melhor lateral da história, David Beckham, Raul, Michel Salgado, Iker Casillas. O que falar desses jogadores? A única coisa é que quando você está ao lado de jogadores muito bons, a tendência é você melhorar muito mais. Eles te fazem melhor. O jogador, quando é craque, você não precisa a todo momento tentar estimulá-lo. Ele mesmo é o próprio estímulo, porque ele quer ser melhor a cada dia.
Como era a relação desse grupo? Tinha uma panela dos brasileiros, vocês eram próximos? – Sim, muito, muito. O Ronaldo e o Roberto nos abraçaram e nos ajudaram muito. Eu sou muito grato a eles, sobretudo pelo Roberto, pelo Ronaldo. Eles nos tratavam como filhos.
São famosas as festas do Beckham, por exemplo. Você chegou a frequentá-las? – Não, não, não é questão de festa. Acho que a questão é de quando existia um dia livre e a gente se reunia para sair ou alguma coisa assim. Era terrível, não dava para se reunir num lugar só, porque era uma loucura. Estar ao lado do David Beckham, Ronaldo, Roberto, era ruim. A gente preferia...
Mas ruim por quê? – Porque eu acho que a fama a esse nível gera estresse tremendo, a pessoa não pode fazer nada, ainda menos mal que naquela época não tinha tanto telefone. Mas era uma loucura, aquela coisa de todo mundo próximo, 20 seguranças protegendo a gente para as pessoas não entrarem, é terror.
– Terror de não poder aproveitar, de não poder conversar com um companheiro, sabe? Mas acho que tudo faz parte da aprendizagem, do que a gente passou naquele momento e são etapas muito boas que ficam guardadas e gravadas na memória.
Isso te inibiu de alguma forma? – Eu prestava muita atenção em tudo o que eles faziam. Era impressionante. Eu prestava muita atenção no Zidane. Ele era um pouco mais introvertido, mas era hiper competitivo. Quando a bola rolava, ele queria ser o melhor em todos os treinos, queria mostrar, demonstrar para todos que ele era o melhor. E aí, claro, ele queria demonstrar, e o Ronaldo também queria demonstrar.
– Aí o David Beckham mostrava que era o melhor que batia na bola. Então, o nível era tão alto que eles acabavam elevando você. Quando você joga com jogadores melhores, você é um melhor jogador.
O que eles mais te ensinaram? Foi algo dentro de campo ou algo como pessoa? – Eu acho que como pessoa. Quanto maior a figura, mais humilde eles eram. Acho que isso é uma base boa, porque eles já tinham conquistado tudo. E não por ser uma figura tremenda eles tinham que ser uma pessoa diferente, que se achava... Não, não. Quanto maior era a figura, mais simples era.
Qual liga você mais gostou de jogar? – A espanhola e a inglesa.
Por quê? – Naquela época, a inglesa era muito física, mas se deixava jogar, tinha muito espaço. Pela forma como eu jogava, um jogador físico, que vinha de trás, me beneficiava. Na espanhola também. E a espanhola muito mais técnica que a inglesa. E um aspecto técnico impressionante, já desde aquele tempo, se regava os campos, a grama era super fininha, a bola rodava a uma velocidade altíssima, se você não fizesse bons controles, bons domínios de bola, a bola escapava. Então tudo isso te permite melhorar muito na sua faceta como jogador. Isso acho que me ajudou bastante.
Você viveu a fase de transição em que a Premier League se tornou a principal liga mundial, superando a espanhola. A que atribui isso? – Simples: porque ela entendeu bem o mercado que queria atacar e já tinha uma cultura dos horários dos jogos, e os horários dos jogos beneficiavam a parte asiática, que é de onde vem os maiores lucros da liga inglesa. Simplesmente por isso.
E na Seleção, o auge foi em 2007, na Copa América? – Sim, porque, naquele momento, eu tinha saído, emprestado para o Arsenal e nem tinha sido convocado. Eu acabei sendo convocado porque tinha muita frequência de convocações. Aí, o Zé Roberto renuncia e, por eu ter essa frequência de convocações, o Dunga pede o meu nome. O seu Américo (Faria), na época, me liga, e aí eu vou. Tanto é que eu era o terceiro reserva e acabo, durante a competição, me tornando titular.
– É uma história de amor com a camisa da Seleção. Desde que eu fui campeão sul-americano com a sub-17, a camisa da Seleção nunca me pesou. Sempre que eu colocava a camisa da Seleção, conseguia entregar mais.
– Para mim, foi uma coisa incrível dentro da minha carreira, dentro dos oito, nove anos que passei na Seleção. Não pude ganhar um Mundial, mas ganhei, entre outros títulos, duas Copas América, duas Copas das Confederações. E ficou me faltando a Copa do Mundo, né?
Como era a relação com o Dunga e por que, mesmo sem conquistar a Copa, foi um ciclo vitorioso? – Ele tinha jogado também, conquistado, sabia como lidar com o jogador, era muito fácil a convivência. Ele era duro, mas falava as coisas super claras, então para nós jogadores era muito tranquilo, para a imprensa não (risos). Mas acredito que é uma pessoa espetacular, um homem de grande caráter, de grande respeito, tenho um respeito incrível por ele, pela forma como ele conduziu aquela Seleção, embora a gente teve uma fatalidade, que foi perder um jogo, contra a Holanda.
– Coisas que acontecem, você acaba tendo um jogador expulso (Felipe Melo), acaba tomando um gol de um jogador de 1,70m. Então, o futebol às vezes é muito incerto e acaba acontecendo. Por isso existe a beleza do futebol. Porque é isso, nem sempre aquele time que demonstra ser o melhor vai ganhar. Essa é a beleza do futebol, por isso que é um esporte tão apaixonante, tão vibrante. E as pessoas sentem essa alegria pelo esporte.
Você acha que se jogasse hoje seria escalado em qual posição? – Talvez um (camisa) oito.
Você se escalaria como um oito? É onde você acha que rende melhor ? – Não, onde caberia na Seleção, né? Pelas características dos jogadores, talvez, que poderiam ter.
Como foi jogar naquele Cruzeiro bicampeão brasileiro? – Eu acho que a construção de um time é baseada na complementação de cada jogador, um complementando o outro. Quando você consegue fazer e entender o modelo do time e que aquele jogador vai combinar com outro, você tem um ingrediente bom. E a gente tinha quase dois elencos muito fortes. Saía jogador, entrava jogador e o nível do plantel se mantinha. Então isso ajudou muito a gente a navegar durante toda a competição sem ter muita oscilação. A gente foi desde o princípio até o final tendo bons resultados, o time jogava muito bem. Era um time que tinha muita posse de bola, muita posse de bola.
– Criava muito, tinha jogadores de altíssima velocidade, Everton Ribeiro, Ricardo Goulart. Eu não era tão rápido, mas eu me posicionava tão bem, me aproveitava dessa velocidade que esse time tinha. Então, é um time que é pouco completo, porque sabia transitar, quando devia, e sabia jogar de forma posicional quando queria machucar os rivais.
Após o Cruzeiro você foi para os Estados Unidos e, depois, teve uma experiência muito curtinha na Romênia, né? – Tive, mas eu nem cito tanto porque acho que foi um erro ter ido para lá, porque foi numa passagem minha para os Estados Unidos, queria ter terminado a carreira lá, mas um treinador chegou e acabou que ele não me queria. Eu acabei ficando um pouco sem espaço e queria seguir jogando. Não identifiquei que era um momento talvez de me retirar e acabei indo seis meses, mas eu nem contabilizo mesmo, eu contabilizo realmente o Orlando City como o meu último clube.
E foi uma experiência bacana? Você gostou de jogar na MLS? – Gostei, gostei. Ainda que eu não goste tanto do gramado sintético, acho que ele é prejudicial bastante para o atleta. Para mim ainda que tinha muitos problemas no joelho, mas são coisas que acontecem.
Se você fechasse os olhos agora e tivesse a oportunidade de escolher um dia da sua carreira para reviver, qual seria? – Talvez a final da Copa América contra a Argentina, né? É uma coisa que sempre vai ficar gravada, porque é uma final. Você ser um protagonista fazendo um gol numa final, acho que tem uma relevância importante. E se eu voltasse e apagasse os olhos, talvez fosse para lá que eu iria.
Os principais jogadores brasileiros foram negros, mas ao mesmo tempo a gente vê muitos poucos técnicos negros no país. A que atribui isso? – Eu acho que falta preparação. Agora, existindo a preparação, vão existir muito mais possibilidades e abertura. Não é só o fato de ser negro. Pode ser que existam menos treinadores negros talvez porque menos treinadores negros estão formados e existam menos possibilidades. Profissionais melhores e mais formados, com possibilidades de trabalhar, eu acho que não tem por que essas possibilidades não existirem.
Essa questão da formação já está sendo corrigida? – Sim. É uma troca, né? A gente se espelha muito no pessoal da CBF, que eles regem bastante coisa no nosso futebol. E a cada momento eles têm que estar olhando para o nosso futebol, como eles podem melhorar o nosso futebol brasileiro.
Nos últimos anos vemos um movimento de muitos treinadores estrangeiros vindo para o Brasil. Há quem defenda, quem critique... Como você vê isso? – Eu acho que o treinador brasileiro perdeu espaço a partir do momento que não se atualizou. E aí começou a abrir espaço para os treinadores que estavam mais atualizados ou que tinham uma outra forma de trabalho, e conseguiu dar mais resultados que treinadores brasileiros. Tem muitos treinadores brasileiros que dão muitos resultados, mas se abriu uma porta muito grande e outros treinadores começaram a dar muitos resultados.
Essa falta de atualização era algo que você já estava percebendo quando você ainda jogava aqui? – Já dava para perceber, sim. Quando ainda estava no Cruzeiro, sim.
E para o futuro, o que pensa? Tem um planejamento para assumir algum time profissional? – Eu acredito que os cinco anos que tive na Europa trabalhando me deram uma base fortíssima. Eu me sinto hoje em dia muito preparado para receber qualquer proposta e atuar já num time profissional, embora quanto mais tempo eu vá passando na base, melhor formação eu vou tendo, mais tempo ainda de visualização do que eu faço, do que eu acredito que realmente funcione, então me dá muito mais força e credibilidade de que daquilo que eu acredito de verdade vai funcionar em qualquer lugar que eu tentar introduzir. Eu acho que não é a rapidez que você chega. Eu acho que a jornada é a mais importante. Eu não tenho pressa, estou criando o meu caminho e, quando a oportunidade existir, a única coisa que sei é que eu vou estar bem preparado para ela.
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