Do fundo do poço ao acesso: América-SP dá novo passo em reconstrução e sonha com elite

Após ficar sem futebol profissional em 2025, tradicional clube do interior é vice-campeão da Bezinha e tenta recuperar estrutura, credibilidade e protagonismo

| GLOBOESPORTE.COM / GABRIEL CASTRO


América-SP volta a conquistar acesso após 25 anos — Foto: Sarah Prado
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Com a derrota para o Independente de Limeira, no último domingo, o América-SP ficou com o vice-campeonato da Bezinha, a quinta divisão do Campeonato Paulista.

Apesar de ficar sem a taça, o acesso, garantido desde a vitória na semifinal, representa um novo capítulo no processo de reconstrução do clube, que passou os últimos anos mergulhado em problemas políticos, financeiros e estruturais.

A subida encerra um longo jejum do Mecão, que não conquistava um acesso há 25 anos, desde a chegada à elite estadual, em 2001.

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Um gigante do interior que adormeceu

Para entender o tamanho da reconstrução, é preciso olhar também para o América que existiu antes da crise. Fundado em 1946, o clube rapidamente ganhou espaço no cenário estadual e se tornou uma das equipes mais tradicionais do interior de São Paulo. Ao todo, são 44 participações na elite do Campeonato Paulista, a última delas em 2007.

Entre 1964 e 1997, o América disputou a primeira divisão estadual de forma ininterrupta, convivendo por mais de três décadas com os principais clubes do futebol paulista. Foi terceiro colocado do Paulistão em 1975 e repetiu a posição em 1994, além de conquistar a Taça dos Invictos de 1973 após uma sequência de 17 partidas sem perder.

A história do clube também ultrapassou as fronteiras estaduais. O Mecão disputou duas vezes a Série A e sete edições da Série B do Campeonato Brasileiro. Em diferentes momentos, enfrentou grandes equipes do país e viu jogadores ganharem destaque nacional. Em 1979, Luís Fernando Gaúcho terminou como artilheiro do Campeonato Paulista, com 27 gols, enquanto Marinho chegou à Seleção Brasileira ainda defendendo o clube.

A força também apareceu nas categorias de base. Em 2006, o Mecão conquistou seu único título da Copa São Paulo de Futebol Júnior, principal competição de base do país. A taça veio após empate com o Comercial-SP no Pacaembu e vitória nos pênaltis.

Do declínio ao ano sem futebol

Rebaixado da elite paulista em 2007, o América iniciou uma sequência de quedas. Em 2012, caiu para a Série A3 e, três anos depois, chegou à Bezinha. Paralelamente ao declínio esportivo, os problemas administrativos, políticos e financeiros se aprofundaram.

A crise se arrastou por quase duas décadas e chegou a um de seus pontos mais críticos em 2024. Naquele ano, o América ficou de fora do Conselho Técnico da Bezinha e passou a conviver com a perspectiva de não disputar uma competição profissional na temporada seguinte.

Foi exatamente o que aconteceu. Em 2025, pela primeira vez em mais de 60 anos, o América passou uma temporada inteira sem colocar um time profissional em campo. O clube disputou apenas competições de base.

Ainda naquele período, porém, começou a trabalhar para retornar. O planejamento estabelecido previa a volta à Bezinha em 2026 e também a recuperação do Teixeirão para receber novamente a Copa São Paulo de Futebol Júnior. Os dois objetivos foram cumpridos.

O estádio voltou a ser sede da Copinha, com o América disputando o Grupo 9, ainda que tenha terminado na última colocação da chave. Mais importante naquele momento era voltar a movimentar o clube, utilizar sua estrutura e preparar o terreno para o retorno do futebol profissional.

Depois de 749 dias sem uma partida profissional, o América voltou a campo em 2026, contra o Assisense, no Teixeirão. Antes da estreia, o clube revitalizou partes do estádio, apresentou um novo elenco e lançou seus uniformes para a temporada.

— Este foi efetivamente o primeiro campeonato dentro desse novo processo e existia uma dúvida natural: será que o trabalho que estamos fazendo é o caminho correto? Agora conseguimos o acesso e tiramos esse peso das costas.

— Não estamos copiando o modelo de ninguém. Estamos desenvolvendo um processo próprio, baseado nas experiências que cada um trouxe de outras áreas. O acesso dá mais confiança para seguir, porque mostra que estamos no caminho certo – comenta o presidente Marcos Cezar Vilela.

Sob nova direção

Por trás da conquista está também uma mudança profunda nos bastidores. O América tem Marcos Cezar Vilela como presidente desde outubro de 2024, quando o engenheiro assumiu o clube depois de anos de disputas políticas envolvendo a antiga gestão.

Vilela havia sido opositor do antigo mandatário e protagonizou embates judiciais e extrajudiciais antes da mudança de comando. Luiz Donizette Prieto, o Italiano, acabou afastado da presidência por decisão da Justiça em janeiro de 2024, abrindo caminho para uma reorganização política da instituição.

Atual presidente, Vilela é também torcedor do América e conhece de perto a história recente do clube. Em visita do ge ao Teixeirão durante a campanha da Bezinha, ele falou sobre o tamanho da responsabilidade assumida.

— Eu sou americano desde que nasci e conheço os bastidores do clube. Sabia que seria um desafio enorme assumir essa responsabilidade, mas tive o apoio do meu grupo, dos amigos e da minha família.

— Muita gente dizia que era loucura encarar tudo isso, mas eu vejo como um propósito de vida. Já demos o primeiro passo, mas ainda existe muita coisa para fazer no futebol, na política, na parte jurídica e na estrutura do clube.

A primeira chapa foi batizada de “Renovação'. Na continuidade do projeto, o nome passou a ser “Evolução'. Segundo o presidente, uma das prioridades foi ampliar a participação dentro do clube, trazendo novas pessoas sem abrir mão de quem já conhecia a instituição.

— Na primeira gestão, a chapa se chamava Renovação. Agora, nesta segunda etapa, é Evolução. Conseguimos renovar o quadro de contribuintes e oxigenar o clube, mantendo pessoas experientes ao lado de gente com novas ideias. É isso que o América precisa.

— Queremos mudar uma cultura em que poucas pessoas decidiam praticamente tudo. A ideia é descentralizar os processos, dividir responsabilidades e fazer com que cada um cumpra sua parte. Esse é um dos principais objetivos desta continuidade de gestão.

Dívidas acumuladas por décadas

A reorganização política, porém, é apenas uma das frentes. O América ainda convive com uma pesada herança financeira acumulada ao longo de muitos anos e diferentes administrações.

No início desta temporada, o ge apurou que o passivo total do clube poderia ultrapassar R$ 30 milhões. Somente na esfera trabalhista, o América chegou a acumular mais de 150 processos originados entre 1999 e 2024, com valor superior a R$ 15 milhões.

Em julho, uma tentativa de diminuir esse passivo ganhou um passo importante. Dos 40 credores convocados para audiências de conciliação na Justiça do Trabalho, 26 acordos foram firmados, totalizando R$ 1.231.600.

Segundo Vilela, o tamanho das dívidas também interfere diretamente no futebol, já que parte das receitas do América não chega aos cofres do clube.

— O desafio financeiro é muito grande porque os recursos provenientes das cotas da Federação são bloqueados integralmente. Por isso, hoje o América depende muito dos patrocinadores, parceiros e contribuintes para manter suas atividades.

— Também assumimos o compromisso de olhar para credores que trabalharam para o clube e ficaram 25 ou 30 anos sem receber. Conseguimos reduzir parte dessas dívidas trabalhistas e vamos continuar fazendo isso gradativamente, conforme o América consiga crescer e aumentar sua arrecadação.

Reconquistar a confiança de Rio Preto

Sem poder contar livremente com todas as receitas, a reconstrução também passou pela tentativa de recuperar a confiança do empresariado de São José do Rio Preto.

A direção priorizou empresas da cidade e da região, algumas delas com histórico de envolvimento com o clube em outras épocas. A ideia foi usar justamente o peso da marca América para mostrar que a instituição vivia um novo momento administrativo.

— Temos uma grande vantagem, que é a força da marca América. Nosso papel foi mostrar ao empresariado que o clube mudou e que é possível confiar novamente na instituição.

— Priorizamos empresas da região porque São José do Rio Preto e o entorno têm um potencial econômico muito forte. Algumas dessas empresas já estiveram com o América em décadas passadas. O que mostramos hoje é que todo investimento que entra é aplicado no clube, seja no futebol ou na estrutura.

O Teixeirão como símbolo da recuperação

Poucas estruturas simbolizam tanto os altos e baixos do América quanto o Teixeirão.

Propriedade do clube, o estádio sofreu diretamente os reflexos da crise. Dívidas administrativas chegaram a provocar determinação judicial para que o imóvel fosse levado a leilão a partir de 2015, como forma de amortizar parte dos débitos acumulados.

O ge esteve no local em 2018, 2024 e novamente em 2026. Nas duas primeiras visitas, encontrou um cenário de abandono, com pichações, fios expostos, traves enferrujadas e diferentes problemas estruturais.

Neste ano, ainda há muito a ser feito principalmente na área externa, onde permanecem pontos com mato alto, ausência de cercas e até partes do muro danificadas. Dentro do estádio, porém, já é possível perceber mudanças. A bilheteria foi pintada, pichações diminuíram e áreas importantes passaram por intervenções.

É uma recuperação que acompanha o próprio momento do futebol: tijolo por tijolo, sem esconder que ainda há um longo caminho pela frente.

— Trabalhamos muito na estrutura do Teixeirão nesses últimos anos. Existiam problemas sérios nas partes elétrica e hidráulica, que são obras que muitas vezes não aparecem para quem olha de fora, mas eram fundamentais.

— A meta é concluir essa recuperação. Já temos luminárias doadas e estamos desenvolvendo o projeto para saber quanto ainda será necessário em material e serviços. Se conseguirmos apoio, queremos ter iluminação disponível para disputar jogos à noite já na próxima temporada.

Recuperar o Teixeirão também significa preservar um dos grandes patrimônios esportivos de São José do Rio Preto. Com capacidade para cerca de 35 mil pessoas, o estádio está entre os maiores do interior paulista e foi palco de partidas que fazem parte da história do futebol brasileiro.

O estádio também testemunhou um momento marcante do Santos. Em 2004, na reta final do Campeonato Brasileiro, o Peixe venceu o Vasco por 2 a 1 no Teixeirão, com gols de Ricardinho e Elano, em uma campanha que terminaria com o título brasileiro.

Agora, a diretoria tenta fazer com que o Teixeirão volte a ser também um ativo financeiro do América. A iluminação é um dos passos, mas o plano passa ainda por utilizar a capacidade do estádio para eventos fora do futebol.

— O Teixeirão tem capacidade para cerca de 34 mil pessoas e já está liberado pelos órgãos competentes. A ideia não é pensar no estádio apenas para o futebol. Queremos colocá-lo no circuito de grandes shows, inclusive nacionais e internacionais. Já temos evento previsto e entendemos que explorar melhor o estádio também pode gerar receita e fortalecer o América financeiramente.

Da A4 até o sonho da elite

Depois de um 2026 que começou com o simbolismo da volta do futebol profissional e terminou com o acesso, o América volta a permitir que seus dirigentes e torcedores olhem para cima.

A Série A4 será o próximo degrau. Para um clube com 44 participações na primeira divisão estadual e que passou mais de três décadas consecutivas na elite, o objetivo de retornar aos principais níveis do futebol paulista deixa de parecer apenas uma lembrança distante.

Vilela trabalha com um horizonte de até cinco anos para recolocar o Mecão na primeira divisão. O planejamento, entretanto, tenta evitar que a ambição coloque novamente em risco uma estrutura financeira que ainda está sendo recuperada.

— O planejamento é dar um passo de cada vez. Em 2027, vamos disputar a A4 e trabalhar para conquistar o acesso à A3. Queremos montar uma equipe competitiva e buscar esse objetivo.

— Internamente, temos metas para os próximos anos. Queremos chegar à elite o mais rápido possível e trabalhamos com um horizonte de até cinco anos para ter o América novamente nesse nível. Também queremos ampliar o calendário, disputar a Copa Paulista e recolocar o clube no cenário nacional.

O vice da Bezinha abre justamente novas possibilidades. Depois de passar 2025 inteiro sem futebol profissional, o América sabe agora que terá a Série A4 pela frente e pode começar a discutir também uma eventual participação na Copa Paulista, criando novamente um calendário mais longo para o departamento profissional.

A diferença em relação a outros momentos é que o tamanho dos próximos passos deverá ser definido pela capacidade de arrecadação. A intenção é evitar compromissos que o clube não consiga sustentar.

— A partir da próxima semana vamos conversar com os patrocinadores. É com esses recursos que vamos definir o tamanho do investimento no futebol, tanto para comissão técnica quanto para atletas.

— Não vamos prometer algo que não podemos cumprir, mas posso garantir que vamos trabalhar para montar um time competitivo e buscar o acesso. O planejamento esportivo precisa caminhar junto com aquilo que o clube consegue arrecadar – encerrou Vilela.

E agora?

Com o acesso conquistado, a reconstrução entra agora em uma nova etapa. Nos bastidores, o América terá também uma eleição para a diretoria. Até o momento, apenas uma chapa participa do processo, e Vilela caminha para a reeleição e para a continuidade do projeto.

No futebol, o planejamento para 2027 começa imediatamente. A direção precisa avaliar quais jogadores do elenco campeão serão mantidos, quais reforços serão necessários e se Kinho Forgiarini seguirá no comando técnico para a disputa da Série A4.

Também entram nessa discussão o orçamento disponível, a busca por novos patrocinadores e a possibilidade de ampliar o calendário com a Copa Paulista.



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