A produção organizada da ignorância recoloca o sarampo no mapa

| FOLHA DE DOURADOS


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A doença estava eliminada no Brasil. Voltou. Não por acaso, mas porque uma estratégia antiga, a mesma que protegeu o tabaco por décadas, ensinou milhões a desconfiar da ciência e acreditar em quem nunca estudou o assunto

Anita Tetslaff (*) –

O sarampo, doença já eliminada no Brasil em 2016, voltou a circular com força. Só no estado de São Paulo, foram confirmados cinco casos em 2026, sendo três em bebês com menos de um ano de idade. O cenário não é isolado, tanto que nas Américas foram registrados 7.145 casos da doença entre janeiro e março deste ano, quase metade do total de 2025, com México, Estados Unidos e Guatemala liderando as infecções.

A pergunta incômoda que emerge desse retrocesso não é apenas sanitária, mas civilizatória: como uma doença que a humanidade já sabe prevenir volta a produzir surtos em pleno século XXI? A resposta exige um olhar para além da crise epidemiológica e demanda um mergulho na agnotologia, campo cunhado em 1995 pelo historiador da ciência da Universidade Stanford, Robert Neel Proctor, para designar o estudo da produção deliberada da ignorância. Para Proctor, a ignorância não é apenas um vazio a ser preenchido pelo conhecimento, mas algo ativamente criado, uma ferramenta política, religiosa e econômica utilizada para semear dúvidas e manipular o que a sociedade escolhe, ou é induzida, a não acreditar.

No Brasil, a queda da cobertura vacinal expõe a fragilidade do sistema de proteção coletiva. Dados recentes indicam que, embora 92,5% das crianças tenham recebido a primeira dose da tríplice viral em 2025, apenas 77,9% completaram o esquema no tempo adequado, um índice perigosamente distante dos 95% recomendados para bloquear a circulação do vírus.

Pesquisadores como Júlia Alves Valois Galvão e Guilherme Caxico de Abreu apontam que a recidiva do sarampo e da poliomielite no país está diretamente impulsionada por movimentos antivacina, notícias falsas, carência educacional e preceitos religiosos. Apenas a abstenção vacinal, contudo, não explica a profundidade do fenômeno.

Por trás dela, opera uma maquinaria mais sofisticada de produção de desconfiança, que segue o script testado e aprovado pela indústria do tabaco décadas atrás. Em 1969, um memorando interno da empresa Brown & Williamson revelou a estratégia: “A dúvida é o nosso produto, pois é a melhor forma de competir com o ‘corpo de fatos’ que existe na mente do público”. A indústria não precisava provar que o cigarro não causava câncer; bastava financiar especialistas, fabricar controvérsias e repetir que os estudos ainda não eram conclusivos, criando um falso equilíbrio que confundia a população e mantinha o negócio lucrativo.

A mesma lógica foi exportada para o negacionismo climático e, mais recentemente, para a pandemia de covid-19. Durante a crise sanitária, a produção de ignorância se tornou um marcador político, alimentada por lideranças que transformaram opiniões em autoridade científica e transformaram o ato de vacinar-se ou usar máscara em símbolo de pertencimento a tribos ideológicas. O fenômeno foi potencializado pela cultura algorítmica, que cria e mantém bolhas de desinformação globalmente, atendendo a interesses diversos, de governos a grupos religiosos, que lucram com a confusão e a polarização.

Práticas de “fazer a própria pesquisa”, que na realidade são um exercício de agnotologia, produzem um paradoxo em que o indivíduo tem a sensação de estar se informando, mas está, na verdade, reforçando crenças pré-existentes e blindando-se contra o conhecimento consolidado. A pergunta que fica, portanto, não é mais apenas sobre o sarampo, mas sobre a estrutura de poder que se beneficia quando milhões de pessoas aprendem a desconfiar de cientistas, universidades e instituições públicas, enquanto depositam fé cega em líderes religiosos, políticos e influenciadores.

Como ensina Robert Proctor, controlar o que uma sociedade sabe dá poder; controlar o que ela aprende a ignorar pode dar ainda mais poder. E é nessa disputa, que ocorre tanto nos consultórios quanto nos feeds das redes sociais, que o futuro da saúde pública está sendo decidido.

(*) Jornalista. Professora. Doutoranda e Mestra em Educação, na Área de Concentração em História e Políticas e Gestão da Educação, pela UFGD. Especialista em Administração de Marketing, pela Uniderp. Especialista em Metodologia do Ensino, pela Universidade Braz Cubas.



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