Esportes
Dossiê Japão: Os cuidados que o Brasil deve tomar e o que pode explorar
Qual é a melhor estratégia para a Seleção encarar os Samurais
| GLOBOESPORTE.COM / RODRIGO COUTINHO
O primeiro desafio eliminatório da seleção brasileira na Copa do Mundo 2026 reserva um adversário complicado. O Japão deve representar um nível de enfrentamento próximo ao que time de Ancelotti teve diante de Marrocos, quando não jogou bem. Será um teste definitivo para entender qual foi o tamanho real do crescimento apresentado contra Haiti e Escócia.
Antes de tudo é importante entender que a seleção japonesa fez um ciclo totalmente inverso ao do Brasil. Tem o mesmo treinador há mais de sete anos e está na segunda Copa do Mundo com Hajime Moriyasu no comando. Em 2022 já fez boa figura ao liderar um grupo que tinha Espanha e Alemanha. Assim como a Seleção, foi eliminada nos pênaltis para a Croácia, mas na fase oitavas de final.
É verdade que ao longo do tempo de trabalho de Moriyasu a equipe teve decepções. Caiu para o Irã nas quartas de final da Copa da Ásia em 2023, levando um gol nos acréscimos. Perdeu também a final da Copa da Ásia 2019 para o Catar. Mas o futebol que passou a jogar nos últimos anos chama a atenção positivamente. Em amistoso antes da Copa do Mundo, venceu a Inglaterra em Wembley.
Outro ponto importante para tratar da seleção japonesa atualmente é abordar a quantidade de lesões de atletas importantes. Entre eles o volante e capitão Endo, a última dessas baixas. Os atacantes Mitoma e Minamino seriam mais dois prováveis titulares da equipe atuando como ala e atacante pelo lado esquerdo.
Já durante a Copa do Mundo, Takefusa Kubo, atacante titular na estreia, ficou de fora dos últimos dois jogos por lesão. O zagueiro Itakura deixou o gramado no 1º tempo contra a Suécia também com um problema físico. Mesmo assim, os Samurais têm peças e organização coletiva para ferir o Brasil. Nas variações como equipe, por exemplo, estão naturalmente bem a frente do time de Ancelotti.
Variação estratégica e time-base
Não são presos a uma forma de jogar. O Japão atuou no contragolpe no amistoso contra a Inglaterra, mas propôs bem o jogo e virou uma partida contra o Brasil no ano passado. É difícil prever qual será o comportamento inicial. O que se sabe é que a equipe domina os conceitos para atuar bem de formas diferentes e possui jogadores com disciplina tática e poder de adaptação.
O esquema tático não muda! É sempre o 3-4-2-1. Trabalha com três zagueiros, mas dá liberdade de avanço a um ou dois deles quando encara adversários mais fechados. Tem alas que são atacantes de origem, e mais um trio bem ofensivo pelo centro da linha de ataque.
Moriyasu promoveu um rodízio em algumas posições dentro da Copa do Mundo, mas possui titulares incontestáveis neste momento. O goleiro Zion Suzuki, o zagueiro Hiroki Ito, os alas Ritsu Doan e Nakamura, o meio-campista Kamada e o atacante Ueda. São seis atletas que certamente iniciarão o jogo contra o Brasil.
As outras duas posições da zaga serão disputadas entre Tomiyasu, Watanabe e Seko como zagueiro pela direita. E Taniguchi e Itakura como zagueiro centralizado. No meio. Kamada pode jogar de volante ou como um dos meias. Na primeira opção, provavelmente ganhará a companhia de Tanaka, que foi muito bem contra a Suécia. Na segunda opção, Tanaka e Sano fariam a dupla de volantes.
Maeda, Junya Ito e Kubo foram os jogadores que mais atuaram recentemente próximos do centroavante Ueda. É provavel que os dois primeiros sejam os escolhidos caso Kamada jogue de volante. Há ainda a hipótese de garantir um pouco mais de solidez defensiva escalando Sugawara na ala-direita e liberando Ritsu Doan como um dos meias-atacantes.
Melhor forma de marcar o Japão
Subir tanto o bloco de marcação talvez não seja a melhor opção neste momento. Os japoneses possuem um goleiro - Zion Suzuki - que se sente confortável em jogar com a bola nos pés e atrair pressões. O time já fez um gol assim nessa Copa, contra a Tunísia. Ele geralmente atrai um atacante e libera um dos zagueiros japoneses para conduzir e passar a bola. Tomiyasu e Ito fazem isso bem.
Sem contar a coordenação do restante da equipe para progredir rapidamente e aproveitar os espaços naturalmente deixados quando uma pressão alta é superada. São jogadores técnicos, rápidos e muito inteligentes do meio para frente. Ueda é um bom exemplo. O centroavante japonês é agil para se desmarcar. Pode atacar as costas da defesa ou atrair um zagueiro para longe da linha
Ueda foi o artilheiro do último Campeonato Holandês jogando pelo vice-campeão Feyenoord. Kamada é outro nome perigoso nesse sentido. Agrega capacidade de articulação e passe com chegada na área para finalizar. Maeda é muito veloz para ser lançado em profundidade.
Iniciar em bloco médio, sem permitir avanços confortáveis, mas ao mesmo tempo garantindo uma distância segura entre os setores, além da metragem controlada dos zagueiros para Alisson seria prudente. Forçar a jogar para trás com combates fortes e cortar as linhas de passe para provocar erros e dúvidas, como o Brasil fez com os fracos defensores escoceses.
Caso seja empurrado para trás, algo que deve ocorrer em alguns momentos do jogo, é necessário entender as dinâmicas que o Japão utiliza postado no campo de ataque. Um dos zagueiros se projeta pelo lado que a jogada se desenvolve, mas isso é mais frequente com Hiroki Ito pelo flanco esquerdo. Ele se solta como se fosse um lateral. Um dos volantes recua para compensar.
A ideia é fazer o volante articular e o zagueiro gerar superioridade pelo lado. Atrair a atenção dos defensores rivais, e ao mesmo tempo liberar movimentos para Nakamura e o atacante que estiver atuando pela esquerda na direção da área ou nos espaços entre zagueiros e laterais. O time fez um gol assim pela direita contra a Suécia, e produziu outras jogadas pela esquerda nos três jogos.
É necessário que o brasileiro que estiver dobrando a marcação com o lateral - Lucas Paquetá e Rayan - tenha muita atenção e disciplina, assim como o lateral, o volante e o zagueiro do setor. É preciso ocupar os espaços e vigiar as infiltrações, dando preferência sempre a quem estiver mais perto da zona de finalização.
Também é bem comum o Japão promover trocas de posição entre pontas e alas, gerar interações entre eles. Enquanto um recebe aberto, o outro se move entre o zagueiro e o lateral para receber uma bola em profundidade e buscar um cruzamento rasteiro para a área bastante ocupada.
O ala do lado contrário ao que a jogada termina se lança muitas vezes dentro da área para finalizar. Vale lembrar que Ritsu Doan joga de ponta-direita no Eintracht Frankfurt, e Nakamura já fez até a função de cenroavante no Stade de Reims. Tem a busca pelo gol na veia.
Ueda é outro ponto de atenção também nesse cenário. Ele costuma atrair zagueiros e liberar espaços de infiltração para Maeda da esquerda para a área.
Explorando o contragolpe
A imagem acima mostra como os zagueiros japoneses que atuam pelos lados se lançam ao ataque em diversos momentos do jogo. Isso pode gerar um efeito positivo para o Brasil caso a equipe consiga roubar a bola e acionar Vinícius Jr ou Matheus Cunha no setor deixado pelo zagueiro e protegido momentâneamente pelo volante, que não tem o mesmo hábito de proteger a área.
Se o zagueiro mais centralizado do Japão for Taniguchi, a situação pode ser ainda mais favorável. Ele tem dificuldades para vencer duelos individuais contra atacantes de alto nível. Itakura, que teve que sair contra a Suécia por um problema físico, é mais forte nesse aspecto.
É importante o Brasil entender que a pressão pós-perda dos japoneses é bastante ajustada. Então se quiser ter sucesso em contragolpes, é preciso tirar a bola da zona congestionada rapidamente. Sobretudo se Tanaka estiver perto da jogada. Superada a primeira pressão, há uma probabilidade muito grande de os atacantes brasileiros levarem vantagem em campo aberto.
Setor mais frágil em fase defensiva
Como trabalha a maior parte do tempo com alas que não têm formação de laterais, os japoneses cedem espaços entre alas e zagueiros se o adversário souber mexer a bola com rapidez e gerar as interações corretas. Isso acontece mais frequentemente pelo lado esquerdo, entre Nakamura e Hiroki Ito.
Rayan e Bruno Guimarães podem combinar tramas nesta lacuna, contando com a presença também de Matheus Cunha e Danilo com ultrapassagens ou apoios por dentro e por fora. Como geralmente o volante do setor é Kamada, que marca menos que Tanaka, o cenário é mais convidativo.
É fundamental, no entanto, que o Brasil circule a bola mais rapidamente em fase ofensiva do que fez nos últimos jogos. O Japão é agressivo como um todo no combate a quem tem a bola. E compacto entre os setores. Morosidade não fará com que os espaços sejam criados e dificultará até mesmo uma jogada individual.
Bola parada aérea
Por mais que o Japão tenha marcado um gol contra a Holanda desta forma, o natural é que o Brasil leve algum tipo de vantagem quando tiver escanteios e faltas laterais. A presença de Rayan no time eleva a média de altura. A brasileira foi sempre superior a dos japoneses em todos os jogos desta Copa.
Isso sem contar a capacidade que jogadores como Gabriel Magalhães, Marquinhos, Danilo e Casemiro possuem nos duelos aéreos. Neymar, caso ganhe minutos no 2º tempo, costuma entregar muita precisão nessas batidas. O Japão levou um gol da Holanda assim na estreia da Copa.
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