Mulher
'Com o apoio das minhas filhas': mãe negra e PCD supera barreiras na universidade
Mariana Rodrigues Correia coleciona conquistas na vida e agradece as filhas pelo apoio
| TOP MíDIA NEWS/SARAI BRAUNA
''Eu queria provar que a deficiência visual não me impediria de estudar e ocupar espaços acadêmicos''. É assim que Mariana Rodrigues Correia resume a própria trajetória. Mulher negra, pessoa com deficiência, diagnosticada com fibromialgia e lipodermia nos braços e pernas, ela transformou dificuldades financeiras, a perda da visão e barreiras de acessibilidade em combustível para conquistar diplomas, atuar como ativista e inspirar outras mulheres.
A história começou em 2010, quando Mariana prestou vestibular em uma universidade particular para Farmácia e Veterinária. Apesar de ter sido aprovada em Medicina, não conseguiu seguir com os estudos por falta de condições financeiras. “Na época eu não tinha como pagar matrícula, mensalidade e materiais. Mesmo assim, não desisti dos estudos”, relembra.
Naquele período, Mariana morava em um sítio com as filhas pequenas, Vitória e Rebeca. A família sobrevivia vendendo produtos de porta em porta nos bairros de Campo Grande. Para incentivar a educação das meninas, ela recolhia livros usados e montou uma pequena biblioteca em casa.
“Eu sempre quis que elas estudassem. Minha filha Vitória reconhecia letras e dinheiro com três anos, e a Rebeca aprendeu a ler ainda no pré-escolar”, conta.
Mas, em setembro de 2017, a vida da estudante mudou drasticamente. Após um deslocamento de retina, Mariana perdeu a visão de forma repentina e passou cinco anos enxergando apenas vultos. “Foi um período muito difícil. Achei que não conseguiria continuar estudando.”
Durante a reabilitação no ISMAC (Instituto Sul-Mato-Grossense para Cegos Florivaldo Vargas), Mariana participou de coral, apresentações culturais e reaprendeu tarefas do cotidiano usando audição e olfato. Também recebeu incentivo para voltar aos estudos.
Em 2019, o instituto realizou sua inscrição no ENEM e no vestibular da UFMS. Depois de uma primeira tentativa sem aprovação, Mariana conseguiu uma vaga no curso de Matemática – Educação do Campo. “Minhas filhas fizeram minha inscrição novamente. Durante a pandemia, elas liam os textos, gravavam áudios e digitavam os trabalhos para mim. Foram meus olhos.”
Mesmo enfrentando dores constantes, dificuldades emocionais e problemas de acessibilidade na universidade, Mariana concluiu a graduação. Em vez de desistir, decidiu continuar estudando e atualmente cursa Linguagens e Códigos pela UFMS.
Além da vida acadêmica, Mariana também se tornou ativista na defesa de mulheres negras com deficiência visual. Participou de passeatas em Brasília pela visibilidade de mulheres negras com deficiência, apresentou trabalhos acadêmicos em Goiás e atuou como voluntária por quatro anos no Hospital Universitário da UFMS, por meio do Projeto Vagalume, nos setores de pediatria, nefrologia e pronto atendimento pediátrico.
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