Os Sussurros do Brejo por Kaily Yada

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Kaily Yada
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Cotações

Há um tipo de peste que não tem febre,
um mal que se espalha sem antídoto,
feito vento que sopra pelas frestas das portas
e infesta as almas de quem não tem ofício.

Nas vielas estreitas, corre a língua afiada,
em bocas que nunca aprenderam o silêncio.
Ali, a palavra nasce deformada,
cresce torta, e se arrasta, indecente.

As vozes miúdas, ansiosas por escândalo,
tecem histórias com fios da mentira.
Bordadeiras da desgraça alheia,
costuram o nome dos outros com linha podre.

Cada olhar atravessado é um punhal,
cada risada, um veneno doce,
cada cochicho, uma confissão
de quem não tem coragem de olhar pra si.

As mentes pequenas cultivam ruído,
como se o caos fosse flor que se rega.
Enquanto a própria vida apodrece no quintal,
elas varrem a do vizinho, como se fosse jardim.

Não há pureza nas bocas que sopram segredos,
há apenas o tédio de quem nunca foi profundo.
Falam do amor alheio, do erro, da queda,
mas esquecem que também caminham no barro.

É curioso ver como o pequeno se acha imenso
quando reduz o outro a rumor.
Mas o rumor é lama:
quanto mais se pisa, mais suja quem pisa.

Em cada esquina, há um eco disfarçado,
uma voz que não pertence a ninguém,
mas que carrega o cheiro do medo,
da inveja, e da mediocridade vestida de opinião.

Esses que vivem da vida alheia
nunca entenderam o peso da palavra “inaceitável”.
Porque o que fazem ,esse deleite imundo
é o esgoto do convívio, a podridão do humano.

Há nisto uma sujeira que não se vê com os olhos,
mas se sente no ar, como um mofo antigo,
entrando pelas frestas do peito,
contaminando o que ainda era puro.

É uma miséria disfarçada de conversa,
um vício socialmente aceito,
onde a boca se torna lâmina,
e o ouvido, um beco sem saída.

Ah, cidade pequena…
onde o tempo é lento, mas a língua é veloz,
onde o coração das pessoas é estreito
e a moral se mede pelo barulho do portão.

Esses sussurros, que parecem inofensivos,
carregam o poder de incendiar reputações.
Mas quem ateia o fogo da fofoca
acaba respirando sua própria fumaça.

Que saibam os pequenos de mente e alma
que o mal que lançam volta com o vento.
E o mesmo sopro que espalha mentiras
também é o que apaga suas velas.

Falar da vida alheia é arte de quem parou de viver,
é a ocupação dos vazios,
o ofício dos inúteis,
a glória dos miseráveis de espírito.

E se há algo realmente sujo,
não é o que dizem sobre os outros,
mas o prazer com que o fazem,
com os lábios sujos de julgamento e desdém.

Ah, se o verbo tivesse espelho,
quantos calariam por vergonha de si!
Mas não — continuam a tagarelar no brejo,
onde a lama é discurso e o som é pecado.

E o mais triste de tudo isso,
é que acham bonito o próprio veneno,
não percebem que o mundo ri deles,
enquanto acreditam ser juízes de um teatro falido.

Que a língua, enfim, se canse do próprio eco,
e que o silêncio volte a ser virtude.
Porque falar da vida alheia
é morrer devagar — e chamar isso de costume.



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