Uso do hormônio testosterona exige cautela, dizem especialistas 

Doses excessivas do hormônio masculino, utilizado para reposição por quem tem deficiência ou em anabolizantes, pode afetar o sistema nervoso
09/08/2018 08:47 Saúde
Testosterona é um hormônio masculino produzido pelos testículos / Foto: Thinkstock
Testosterona é um hormônio masculino produzido pelos testículos / Foto: Thinkstock

Testosterona é um hormônio produzido nos testículos, responsável por algumas características do sexo masculino. Tem papel fundamental na produção e no amadurecimento dos testículos, além de controlar o desejo e a potência sexual.

A diminuição da testosterona no organismo está ligada a alterações físicas e psíquicas do processo de envelhecimento, como fraqueza, redução da massa muscular e da vitalidade, depressão e perda das funções cognitivas.

Por outro lado, o excesso do hormônio também pode trazer prejuízos, como infertilidade, aumento da pressão sanguínea, acne severa, retenção de líquidos, aumento da próstata, diminuição dos testículos, impotência e alterações de humor.

Os anabolizantes, frequentemente usados por pessoas que buscam o aumento rápido da massa muscular, são drogas derivadas da testosterona. A reposição do testosterona também é utilizada em homens com baixa produção desse hormônio. 

O endocrinologista Evandro de Souza Portes, da Sben (Sociedade Brasileira de Endocrinologia) e do serviço de endocrinologia do Hospital dos Servidores Públicos de São Paulo, explica que o consumo de doses elevadas de anabolizantes e, consequentemente, testosterona, sem acompanhamento médico, pode aumentar o nível de agressividade e impulsividade de uma pessoa.

“A testosterona em doses exageradas faz com que as pessoas fiquem mais agressivas. Elas passam a ter uma sensação de força maior, ficam mais suscetíveis a momentos de explosão, ficam mais nervosos”, diz. As doses de testosterona devem ser determinadas por um médico e varia de acordo com o paciente.

Mas o próprio especialista salienta que essa mudança acontece a partir de doses elevadas do hormônio. É diferente, por exemplo, do paciente que, por algum motivo de saúde, deixa de produzir testosterona e precisa fazer a reposição – este indivíduo vai ficar com um nível normal do hormônio, segundo ele.

"Tudo depende da dose de testosterona. O hormônio é uma medicação para muitos pacientes, pessoas que, por causa de alguma doença, deixam de produzir a testosterona e precisam repor. Quando isso é feito em doses adequadas, a pessoa não vai ficar agressiva, mas quando se faz uso de doses muito elevadas, a pessoa pode ficar muito agressiva".

Na última semana, a Polícia Civil do Paraná encontrou diversos frascos de anabolizantes na casa do biólogo Luís Felipe Manvailer, 32. Na segunda-feira (6) ele foi denunciado pelo Ministério Público do Paraná por feminicídio (nome que se dá ao assassinato de uma mulher, quando causado pelo fato de ela ser mulher) com três qualificadoras: motivo fútil, morte mediante asfixia e uso de meio que dificultou a defesa da vítima. Além disso, ele também foi denunciado por cárcere privado e fraude processual.

O biólogo é acusado de matar a esposa, a edvogada Tatiane Spitzner, 29. Câmeras do condomínio onde eles moravam registraram cenas de extrema violência. Por mais de 20 minutos, o biólogo agride a advogada na garagem e no elevador. 

Luís Felipe está preso na Penitenciária Industrial de Guarapuava. Dias antes do crime, em mensagem para uma amiga, Tatiane contou que desconfiava que o marido estava fazendo uso de anabolizantes. “Mudou completamente, não conheço mais a pessoa que tenho do meu lado”, disse a advogada, como divulgou o RicMais, parceiro da RecordTV no Paraná.

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Substância pode potencializar características agressivas

Além de mudar o comportamento de uma pessoa, a testosterona presente nos anabolizantes também pode potencializar algumas características como a irritabilidade, a agressividade e a impulsionalidade.

O psiquiatra Diego Tavares, do Hospital das Clínicas da USP, explica que tudo depende da predisposição do indivíduo para doenças psiquiatras. "Se a pessoa tiver risco para doença psiquiátrica, o uso de doses exageradas de anabolizantes podem levar a quadros de obsessão e ciúmes patológicos", diz.

Segundo o especialista, a testosterona que está presente nos anabolizantes causa efeito no sistema nervoso central, mas isso depende da quantidade de receptores e da sensibilidade que cada indivíduo tem para o hormônio. "E isso não tem como prever porque o indivíduo só vai saber que têm essa sensibilidade quando entrar em contato com a substância”, diz Tavares.

O médico explica que em grande parte das pessoas o efeito no cérebro é pequeno, ficam mais evidentes apenas os efeitos anabólicos, aqueles que afetam o crescimento muscular. Mas, em alguns indivíduos com predisposição, podem surgir mudanças no comportamento. São alterações chamadas de "quadros maníacos induzidos por substâncias" e que se caracterizam por mudanças de humor, aumento de energia e impulsividade.

"A pessoa fica com humor agressivo, pavio-curto e sensível a brigar. Tende a responder aos estímulos sem prever as consequências, perde o filtro, sabe distinguir o certo e o errado, mas, às vezes, não consegue filtrar o comportamento e fica com energia aumentada podendo, inclusive, dormir menos”.

O psiquiatra explica que essas alterações podem ocorrer com outras substâncias de maneira diferente, por exemplo, no uso de álcool. Ao ingerir uma bebida alcóolica, alguns infivíduos ficam com as mesmas alterações, mas com humor eufórico: alegria excessiva, empolgação e exagero. O álcool também pode favorecer a impulsividade e a reação exagerada, mas o efeito da bebida costuma desaparecer assim que passa o efeito da substância.

Já as substâncias contidas nos anabolizantes podem permanecer no organismo por cerca de quatro a seis meses, dependendo do tipo de testosterona injetada. Por isso a mudança de comportamento pode perdurar durante longos períodos, não apenas por algumas horas.

“Quem convive com uma pessoa que não tinha um comportamento agressivo prévio nem sempre percebe uma mudança no humor e na impulsividade por serem mudanças leves e muitas vezes reativas a eventos realmente estressantes", diz.

Segundo o psiquiatra, o que auxilia na identificação de quadros maníacos induzidos por substâncias é uma mudança no comportamento prévio e a presença de alterações persistentes de comportamento. Mesmo que sejam reações a fatores estressantes, são claramente desproporcionais, como ficar intolerante, procurando briga, agressivo e hostil.

"Mesmo que as reações intensas e exageradas sejam pontuais, a pessoa permanece com a predisposição para mudar o humor na maior parte do tempo, enquanto durar o efeito da substância”, explica Tavares.

Fonte: Gabriela Lisbôa, do R7

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