Mesmo doentes, professores são forçados a retornar às salas de aula

Educadores relatam humilhação durante entrevista feita de forma irregular pelo IMPCG
08/06/2019 14:19 Educação
Professora sofreu perseguição durante processo para retornar ao trabalho e relata dificuldade - Valdenir Rezende / Correio do Estado
Professora sofreu perseguição durante processo para retornar ao trabalho e relata dificuldade - Valdenir Rezende / Correio do Estado

Ansiedade, estresse, dores de cabeça e na coluna, insônia e tendinite estão entre os principais problemas que afetam educadores. É só perguntar para um professor como está a sua saúde que as queixas vão de esgotamento físico a mental, decorrente de uma rotina cada vez mais desgastante. Esse é o caso de 492 professores, dos 4.550 concursados da Rede Municipal de Ensino (Reme), em Campo Grande, que estão em readaptação, processo no qual docentes ocupam outras funções na escola.

Mesmo apaixonada por estar em sala de aula, a educadora Patrícia Corrêa Moreno se esforça para continuar na rotina escolar. Ela tem sério problema na coluna, que se agravou com um acidente. Por conta das dores na lombar, foi obrigada a abonar a sala de aula e, em decorrência do acidente, teve de colocar placas na cervical. “Para eu ficar muito tempo em pé ou dobrada em uma carteira atendendo às dúvidas dos alunos, é muito sofrido, e escrever no quadro é quase impossível”.
A educadora explica que não falta serviço na escola, então, os professores em readaptação são aproveitados em várias áreas. Ela ficou na biblioteca, na área administrativa. “Agora, estou em uma escola maravilhosa, com uma diretora maravilhosa, que respeita os readaptados. Eu trabalho como coordenadorado programa Mais Alfabetização, já dei aula de reforço para alguns alunos, mas não posso pegar mais de três”, diz. 

Outro apaixonado pela sala de aula é o professor de História Genivaldo Santos Silva, que é educador há 36 anos e também está em processo de readaptação. Mas problemas psiquiátricos lhe impedem de fazer o que lhe dá mais prazer. “A sala de aula é minha paixão, mas não consigo mais dar aula, por enquanto. Depressão, ansiedade, insônia tudo isso me atrapalha. Eu não gosto de ensinar sem emoção. Você tem de estimular o aluno, fazê-lo gostar de aprender, e, como eu estou agora, não conseguiria motivar eles a gostar de História”. 

PREVENÇÃO

O presidente do Sindicato Campo-Grandense dos Profissionais da Educação Pública (ACP), Lucílio Nobre, explica que já fez um pedido à Secretaria Municipal de Educação (Semed) e ao Instituto Municipal de Previdência de Campo Grande (IMPCG) para que fizessem campanha específica para os educadores, a fim de que eles não precisem se afastar da sala de aula. “Já pedimos que fosse feito um programa de acompanhamento de estresse e recuperação do professor. Ninguém quer ficar doente. O professor gosta de ficar na sala de aula”. 

O sindicalista frisa ainda que permanecer ou não em readaptação não é uma decisão dos servidores, pois estes passam por avaliação médica, mas muitas vezes o perito não homologa essa condição. “Muitas vezes o perito não escreve a homologação e, assim, contrapõe o laudo que o paciente tem”, argumenta. 

No caso de professores filiados à ACP que se sentirem prejudicados, o sindicato está à disposição com a assessoria jurídica para contestar e, se for o caso, até judicializar.  

Conforme a Lei Complementar n° 190, de 22 de dezembro de 2011 – o Estatuto do Servidor Municipal –, após dois anos de afastamento da função, ou seja, da docência, o professor será readaptado definitivo, conforme o laudo médico. Assim, pode desenvolver outras funções dentro da escola. Decreto que trata dos readaptados, publicado no ano passado, considera que o servidor nesta condição fique na função de assessoramento pedagógico, pois neste caso não há perda da aposentadoria especial.  

Os professores que estão em readaptação fizeram uma comissão composta de aproximadamente 100 educadores que questionam o Decreto nº 13.570, de 23 de julho de 2018, no qual está previsto que os readaptados nos últimos cinco anos serão chamados ao IMPCG para perícia médica.  

Os professores readaptados foram convocados para irem até a Semed e de lá já saíram com agendamentos para comparecer ao IMPCG, mas em nenhum momento foram informados se era ou não para levar laudos médicos. Os educadores afirmaram que foram humilhadose até que peritos teriam dito que no caso deles só teria dois caminhos: aposentadoria ou voltar para sala de aula. 

O psiquiatra Kleber Vargas explica que profissionais na área de saúde, policiais e professores acabam sendo vítimas de doenças mentais em razão do estresse diário que enfrentam. “O estresse muito alto, a carga de horário muito grande, má qualidade do local de trabalho, pressão de alunos e pais e até agressões física e verbal que os professores sofrem acabam levando esses educadores a ficarem doentes”.

Fonte: EDUARDO PENEDO / Correio do Estado

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