Brasil/Mundo
Ciência cidadã ajuda a reencontrar vaga-lume após 43 anos
Estudo identificou 28 espécies desaparecidas de registros científicos na América do Norte; pesquisa projeta que outras ainda possam ser reencontradas
| ÚLTIMO SEGUNDO / THIAGO SóRIATHIAGO SóRIARECéM-FORMADO EM JORNALISMO PELA UFRGS. 3º LUGAR NO PRêMIO SEMA-FEPAM 2025. ENTUSIASTA DE CIêNCIA, PREOCUPADO COM O MEIO-AMBIENTE E Fã DE ESPORTES, SEJAM ELES ELETRôNICOS OU NãO. GAúCHO E ASSíDUO NO CHIMARRãO.
Uma espécie de vaga-lume que não era documentada pela ciência desde 1983 foi redescoberta em uma reserva natural de Delaware, nos Estados Unidos. Com nome científico Pyractomena similis, o inseto foi visto em junho de 2026, 43 anos depois.
Conforme a Re:wild, organização internacional que mantém uma lista de busca por espécies perdidas com suspeita de extinção, a redescoberta foi acompanhada por um “pacote' de mais 27 espécies de vaga-lumes redocumentadas e publicadas em estudo no Journal of Lost Species, todas entre os Estados Unidos e o Canadá.
A espécie reencontrada foi vista no dia 03 de junho por Christopher Heckscher, entomologista e ecologista da Universidade Estadual de Delaware, em uma visita norturna ao Parque Estadual Brandywine Creek.
Ainda antes, durante o verão de 2026, dois moradores da região compartilharam imagens de possíveis encontros do vaga-lume similis em uma plataforma para ciência cidadã, enquanto um terceiro divulgou outro caso em maio, na Virgínia, Estados Unidos.
Durante a visita, o cientista encontrou insetos que emitiam uma sequência de flashes curtos de luz âmbar, em tons amarelo-esverdeados, e levou exemplares para confirmação por meio de análises microscópicas. O padrão intermitente de emissão de luz é uma característica central da espécie.
O estudo “Extinguished or overlooked? An examination of lost firefly species of the US and Canada' aponta que existem 69 espécies com lacunas de conhecimento sobre seu estado de conservação e outras 48 sobre as quais não há dados disponíveis na região.
Segundo o pesquisador, a espécie pode ter sido considerada extinta por uma série de fatores: destruição de habitats, período reprodutivo curto, atividade noturna e a falta de buscas direcionadas para encontrar a espécie.
E é justamente pela falta de buscas que muitas espécies acabam sendo consideradas extinguidas, mas podem ter sobrevivido, ainda que ameaçadas. Os pesquisadores apontam que a colaboração da população é fundamental para a confirmação desses dados.
O desaparecimento de uma espécie não significa, necessariamente, que ela esteja extinta ou em situação grave de ameaça. Na prática, somente sumiu de quaisquer registros científicos a partir de determinado período.
E muitas das vezes, ninguém vai atrás na tentativa de confirmar. O caso do vaga-lume Pyractomena similis é um bom exemplo. Apesar da confirmação de sua existência por meio do estudo publicado em outubro, houveram registros anteriores, por cidadãos.
Durante o verão deste ano, o inseto foi visto em Ashburn, na Virgínia, nos arredores de Washington, D.C., em 15 de maio, por Aljoscha Nern, que registrou o caso na plataforma iNaturalist e a identificação da espécie foi confirmada por meio de exame microscópico em 6 de julho.
A plataforma é uma espécie de rede social voltada à ciência cidadã, onde qualquer pessoa pode registrar espécies de plantas, animais e fungos encontrados na natureza.
Ao mesmo tempo, o pesquisador Heckscher observou as emissões de luzes no dia 03 de junho e confirmou em exame cerca de um mês depois, o que deu origem aos estudos. Agora, resta avançar em estudos populacionais para entender o estado de conservação dos vaga-lumes.
Aljoscha Nern, neurobiólogo com interesse amador em vaga-lumes, observa um exemplar em Ashburn, nos arredores de Washington, D.C., e registra o avistamento no iNaturalist.
Christopher Heckscher, entomologista e ecologista da Universidade Estadual de Delaware, encontra a espécie em expedição própria no Parque Estadual Brandywine Creek e reconhece o padrão luminoso característico.
Heckscher confirma a identificação por meio de exame microscópico.
O registro de Nern também é confirmado por microscopia.
A Re:wild publica o comunicado sobre a redescoberta.
A organização acrescenta que houve dois avistamentos independentes durante o verão de 2026, e não apenas o reencontro em Delaware.
Fonte: Re:wild; estudo “Extinguished or overlooked? An examination of lost firefly species of the US and Canada', publicado no Journal of Lost Species.
Heckscher conta que “haviam sinais' da espécie durante a visita noturna no Parque Estadual Brandywine Creek. Isso porque, brincadeiras à parte, os machos da espécie emitem de dez a 20 pulsos de luz em sucessões rápidas, como flashes de uma sessão fotográfica, pausam e emitem novamente.
A espécie costumava habitar áreas ao Leste e Sul dos Estados Unidos e, uma das poucas informações sobre o comportamento conhecidas é que prefere campos e pradarias com proximidade da água.
Segundo o pesquisador, a redução desses ambientes provavelmente foi o fator central para a “morte científica' da espécie, ou seja, pela falta de registros a partir de 1983.
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