"Muito macabro": o luto e a revolta da família de Daniel oito anos depois da cruel morte do jogador

Daniel Corrêa foi assassinado aos 24 anos, com indícios de tortura, depois de uma festa em Curitiba. Mãe prefere não falar, e primo resume: "O que fizeram foi uma covardia, nada justifica"

| GLOBOESPORTE.COM / TéBARO SCHMIDT


Daniel surgiu no Botafogo em 2014, aos 20 anos. E morreu aos 24, quando estava emprestado ao São Bento — Foto: Fabio Castro/AGIF
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Em outubro de 2018, tal qual ocorreu esta semana, o Brasil foi às urnas para eleger um novo presidente. Uma família de Conselheiro Lafaiete, no interior de Minas Gerais, porém, mergulhou em um pesadelo no mesmo momento em que se dava a apuração dos votos que apontaria a vitória de Jair Bolsonaro, candidato do PSL, sobre o petista Fernando Haddad. Era dia 28, por volta de 18h da tarde.

- Algum de vocês teve contato com o Daniel nos últimos dias?

A mensagem ligou o alerta no grupo dos primos. Daniel Corrêa Freitas era o jogador revelado no Botafogo, com passagens por São Paulo, Coritiba e que estava emprestado ao São Bento quando foi brutalmente assassinado num crime que completou oito anos esta semana. Mas, naquele momento, ninguém sabia disso.

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A mãe do Daniel, dona Eliana Aparecida Corrêa, não tinha notícias do filho havia quase dois dias e estava preocupada. A última coisa que ela sabia é que Daniel tinha ido a uma festa em Curitiba na noite de sexta-feira. As chamadas para o celular desde então não completavam, e as tentativas de contato pelo aplicativo de mensagem não acusavam recebimento.

Depois de mais de uma hora de agonia, alguém da família descobriu que a festa da qual o jogador havia participado era o aniversário de 18 anos de uma jovem chamada Allana Brittes, em uma casa de show da capital paranaense. "Eu nunca tinha ouvido falar o nome dessa moça", admite Henrique Salmaso, primo e um dos melhores amigos de Daniel. Ele contou ao ge o que se lembra daquele angustiante dia.

- Meus primos conseguiram falar diretamente com a Allana. Ela disse que o Daniel tinha ido para a casa dela depois da festa, dormiu lá, acordou e foi embora. Que ele pegou um Uber e foi embora - disse Henrique, antes de completar:

"E isso era uma mentira do car***!".

Allana vivia em São José dos Pinhais, cidade da Região Metropolitana de Curitiba. Ela é filha de Edison Luiz Brittes Junior, o "Juninho Riqueza", o homem que mais tarde foi condenado pelo assassinato de Daniel. A polícia concluiu que ela sabia o que o pai havia feito, mas tentou fraudar a investigação com informações falsas e também mentiu para a família da vítima.

Em depoimento no processo criminal, ao qual o ge teve acesso, uma tia de Daniel contou que Allana foi "extremamente solícita o tempo todo", colocando-se à disposição para ajudar no que fosse preciso. Ela mostrou preocupação e compartilhou o telefone de hotéis da cidade onde o jogador poderia ter se hospedado, por exemplo.

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Um dos primos de Daniel, temendo o pior, passou a fazer contato com a polícia e os hospitais de São José dos Pinhais. Ligou, também, para o Instituto Médico Legal, onde recebeu a informação de que um corpo ainda sem identificação que havia sido encontrado na manhã do dia anterior, no sábado, tinha as mesmas características. Era um rapaz branco, de aproximadamente 25 anos, sem tatuagens.

Daniel, que morreu com 24 anos, ainda lidava com as consequências da grave lesão no joelho direito sofrida três temporadas antes. O jogador ex-Botafogo e São Paulo, no intervalo de menos de dois anos, rompeu duas vezes o ligamento cruzado anterior. O corpo no IML tinha uma cicatriz no mesmo joelho. Foi dessa forma que a família de Daniel descobriu que ele estava morto.

- Como assim? Que po** é essa, mano? - reagiu Henrique ao receber a notícia.

Dois anos mais novo, Henrique foi criado ao lado do primo em Conselheiro Lafaiete. Era como se fossem irmãos. O jogador dividia com ele as alegrias e as angústias da carreira. A mãe de Daniel, Dona Eliana, não comenta o ocorrido - a reportagem do ge foi aconselhada por pessoas próximas a sequer procurá-la. Em meio ao luto doloroso de um caso que teve desfecho apenas dois anos atrás, com o júri popular que determinou a sentença dos envolvidos, a família prefere não reabrir essa ferida e adota o silêncio.

Henrique é o único que não se incomoda em gravar entrevista.

Naquele dia, ele se lembra de ter cogitado diversas causas para a morte do primo, mas que nenhuma delas foi assassinato. O Daniel, como brinca, "nunca brigou nem com uma formiga, nunca teve uma treta". Mas Henrique foi cavando um buraco sombrio à medida que pesquisava as primeiras informações em portais locais e se deparava com detalhes de embrulhar o estômago a respeito das circunstâncias do crime.

O corpo de Daniel estava desfigurado. Por isso, a identificação no primeiro momento só foi possível graças à cicatriz no joelho. As marcas e as várias escoriações sugeriam que o jogador tinha sido vítima de um brutal espancamento.

ATENÇÃO: o parágrafo a seguir contêm relatos fortes e potencialmente perturbadores. Recomenda-se cautela na leitura.

O laudo pericial constatou que havia um "extenso ferimento disposto em quase toda a circunferência da região cervical", de modo que a cabeça foi praticamente separada do pescoço. Restaram três centímetros de pele íntegra. Além disso, houve "amputação peniana total". O órgão genital da vítima estava em cima de uma árvore perto de onde o corpo foi encontrado, numa região de mata de São José dos Pinhais.

- O que fizeram com ele foi uma covardia - conclui Henrique oito anos depois.

- Tudo isso foi muito frio, muito macabro mesmo. Lembra crimes de 500 ou mil anos atrás, que as pessoas morriam com a cabeça decapitada e outras coisas mais. Nada que ele possa ter feito justifica isso.

"Ele estava um pouco desiludido"

Nascido em Juiz de Fora, Daniel Corrêa cresceu rodeado pela família em Conselheiro Lafaiete, cidade de 140 mil habitantes que fica a cerca de 100 quilômetros de Belo Horizonte. Ele surgiu na base do Cruzeiro, um dos clubes do seu coração - o outro era o Fluminense, por influência do pai.

O meia franzino se transferiu para o Botafogo no final da sua formação com status de joia, graças aos gols e à velocidade com que disparava pelo campo, sempre com a bola colada no pé direito. Daniel subiu para o profissional em 2013 e, no ano seguinte, já era um dos principais nomes do time comandado por Oswaldo de Oliveira.

Em maio de 2014, o jogador marcou seu primeiro e único hat-trick da carreira na goleada por 6 a 0 sobre o Criciúma, pelo Brasileirão (relembre no vídeo abaixo). Do sossego em Lafaiete até a responsabilidade de ser o cara de um time que brigava contra o rebaixamento, com direito a música no Fantástico, a vida dele mudou num piscar de olhos.

- O Daniel sempre foi um cara muito tranquilo, muito tranquilo mesmo. Tímido, falava baixo. Ele não tinha muito esse estereótipo de jogador, no sentido de ser um cara tatuado, com uma personalidade muito forte - explica o primo Henrique.

- Ele era um cara tão reservado que, às vezes, parecia que não queria ter o tamanho que ele estava ganhando. Claro, não estamos falando aqui de nenhum jogador de nível de seleção brasileira, mas é um cara que teve algum sucesso no início da carreira e ficou assustado com isso - acrescenta.

Com 28 jogos, cinco gols e três assistências, Daniel parecia consolidar sua primeira grande temporada da carreira quando sofreu uma grave lesão no joelho direito. Em setembro, num jogo contra o Ceará pela Copa do Brasil, ele rompeu o ligamento cruzado. Era o início de um longo período de sofrimento.

Daniel nunca se recuperou por completo da lesão, ao menos não a ponto de voltar a jogar totalmente livre de dores. Em janeiro do ano seguinte, ele rompeu o mesmo ligamento, dessa vez subindo a escada de casa. A lesão transformou-se num problema crônico. "Velho, eu sinto dor até para deitar", queixava-se com os mais próximos.

O São Paulo ganhou uma disputa com o Palmeiras e contratou o meia em dezembro de 2014, mas ele só conseguiu fazer sua estreia em setembro de 2015, num empate sem gols com o Joinville. Ao todo, foram 15 jogos com a camisa tricolor. Daniel foi emprestado para Coritiba e Ponte Preta nos anos seguintes e continuou a rotina de poucos minutos em campo, atuações apagadas e muitas dores no joelho.

"Ele já estava um pouco desiludido, sabe? Eu tenho isso para mim. Acho que, se não tivesse acontecido essa tragédia, provavelmente hoje ele não estaria mais jogando, não", acredita Henrique.

Seu último clube foi o São Bento. Naquele fatídico fim de semana de eleições de 2018, a equipe tinha um jogo contra o CRB, pela Série B do Brasileirão. Ele treinou na sexta-feira, mas, como não seria relacionado, ganhou o sábado, o domingo e a segunda-feira de folga. Por isso, aproveitou para ir a Curitiba rever alguns amigos e comemorar o aniversário de Allana Brittes.

A diretoria do São Bento combinou de estender a folga e liberar os jogadores até terça-feira em caso de vitória sobre o CRB. A equipe venceu por 1 a 0, o gol marcado por Zezinho. Mas, quando o clube foi a campo no sábado, Daniel já estava morto.

O crime: os fatos e as conclusões

De Sorocaba, Daniel foi de carona até Curitiba e ficou na casa de um dos seus melhores amigos, que também havia sido convidado para o aniversário de Allana. No ano anterior, eles estiveram na festa de 17 anos da jovem. E o convite se repetiu.

Na casa noturna, de acordo com os depoimentos colhidos pela polícia, tudo correu dentro de uma normalidade. Houve muito consumo de bebidas alcóolicas. Os exames feitos no corpo de Daniel após a morte apontaram 13 decigramas de álcool por litro de sangue, o que é considerado um nível alto de embriaguez.

Pela manhã, Allana decidiu estender as comemorações na casa da família em São José dos Pinhais, a menos de 15 quilômetros de distância de Curitiba. Só um pequeno grupo, com Daniel incluído, se dirigiu para o "after". Como precisava trabalhar cedo, o melhor amigo do jogador foi para casa depois da balada.

Na residência dos Brittes, os convidados ficaram reunidos numa área externa. Cristiana, mãe de Allana, estava muito embriagada e foi se deitar. Em determinado momento, Daniel entrou na suíte onde a mulher estava dormindo e se deitou na cama com ela vestindo apenas camisa e cueca. Ele chegou a enviar fotos e um áudio entre risadas para um dos seus primos, assim transcrito no processo criminal:

- Moleque, a situação aqui é desesperadora. Não sei como é essa casa que eu vim parar, mas tem uma coroa dormindo, tem uma novinha dormindo. O namorado da novinha eu não sei onde está, o marido da coroa eu não sei onde está. O que eu faço?

À polícia, Cristiana contou que acordou com Daniel esfregando-se nela, com o pênis ereto e apertando os seus peitos. Ela afirma, inclusive em entrevistas recentes, que foi estuprada pelo jogador. As investigações não comprovaram essa hipótese.

- Eu não sei se ele violou ela sexualmente, eu imagino que não, mas o Daniel importunou ela. Isso eu tenho certeza que sim. Porque me parece que ele entrou num quarto no qual ele não foi convidado e estava mandando umas fotinhos para um primo nosso, tá? Ele estava importunando ela, isso eu tenho certeza - diz Henrique, sem poupar o primo.

Edison Brittes estranhou ao tentar abrir a porta do quarto e notar que estava trancada. Ele, então, deu a volta e viu pela janela a cena de Daniel na cama com a mulher. A partir daí, de acordo com ao menos seis testemunhas ouvidas pela polícia, é possível concluir que a sucessão de fatos se deu da seguinte maneira.

Edison pulou a janela do quarto, arrastou Daniel da cama e começou a agredi-lo. Ao escutar a confusão, outros três homens se juntaram a ele: Ygor King, David Willian Vollero e Eduardo Henrique Ribeiro. Os quatro deram início a uma sessão brutal de espancamento que durou alguns minutos.

Em seguida, Daniel foi arremessado no chão da garagem, muito machucado e sem demonstrar reação, quase inconsciente. Sua cueca havia sido arrancada. Uma das testemunhas afirma que ouviu o jogador dizer mais de uma vez que não queria morrer enquanto Edison pegava uma faca sem serra na cozinha. Os quatro homens o colocaram no porta-malas e saíram com o carro.

Desse ponto em diante, os investigadores não conseguem dizer com precisão o que ocorreu. Ygor, Eduardo e David afirmam que, assim que chegaram na região de mata que fica cerca de 20 minutos de distância da casa, Edison tirou Daniel do carro e usou a faca para cortar o seu pescoço. O corte causou a hemorragia externa que provocou a morte do jogador, apontou o laudo pericial.

Depois, ainda segundo os três, Edison arrancou o órgão genital da vítima, arremessou para longe e arrastou o corpo para fora da estrada. Teria feito tudo isso sozinho.

No entanto, na denúncia entregue ao Ministério Público do Paraná, a polícia não descartou a possibilidade de que a amputação peniana tivesse ocorrido antes do ferimento fatal no pescoço. E apontou indícios de que Daniel foi imobilizado por uma ou mais pessoas durante a sessão de tortura.

Delegado que esteve à frente do inquérito na delegacia de São José dos Pinhais, Amadeu Trevisan está aposentado da polícia. A reportagem do ge entrou em contato com ele e com um dos investigadores que trabalharam no caso, mas eles não quiseram gravar entrevista.

O corpo de Daniel Corrêa foi encontrado entre 10h e 11h da manhã do sábado, dia 27.

- Se ele importunou ela ou não, não justifica a crueldade de um crime que lembra a Idade Média, crime em que você corta a cabeça de uma pessoa. Não justifica - resume Henrique, deixando transparecer a revolta.

- O Daniel estava querendo pagar de machão entrando num quarto que ele não foi convidado, e o Edison matou ele e cortou o pênis dele fora para mostrar que eu sou mais macho que você. E no final das contas, um tentou ser mais homem do que o outro, um está dentro de um caixão e o outro está dentro de uma cadeia. Por causa de mulher, foi isso que aconteceu - conclui ele.

A polícia pediu o indiciamento de sete pessoas. Além da participação de Edison, Allana, Cristiana, Ygor, David e Eduardo, o Ministério Público também acusou Evellyn Brisola Perusso de fraude processual e corrupção de adolescente. Ela teria ajudado a sumir com os vestígios do crime na casa e convencido uma jovem de 17 anos, que estava na festa, a participar da farsa.

Cinco deles responderam o processo em liberdade. Já Edison e Eduardo tiveram a prisão preventiva renovada por diversas vezes e permaneceram na cadeia até a realização do julgamento em março de 2024.

O júri popular absolveu David Willian Vollero, Eduardo Henrique Ribeiro, Ygor King e Evellyn Brisola Perusso de todas as acusações. Cristiana Rodrigues Brittes foi condenada a um ano e seis meses de reclusão por fraude processual e corrupção de menores. A filha, Allana Emilly Brittes, pegou uma pena maior porque também foi considerada culpada pelo crime de coação no curso de processo: sete anos e nove meses de reclusão.

Os jurados concluíram que Edison Luiz Brittes Junior foi o único responsável pela morte de Daniel e condenou o empresário a 42 anos pelos mesmos crimes citados acima, além de ocultação de cadáver e homicídio triplamente qualificado, já que houve motivo torpe, meio cruel e emprego de recurso que impossibilitou a defesa da vitima.

Edison é o único que continua na cadeia. Ele está preso na Penitenciária Estadual de Piraquara, no Paraná.

- Eu não sei nem quantos anos ele pegou de cadeia - conta Henrique, que há anos tomou a decisão de não acompanhar as notícias relacionadas à morte do primo.

- Eu estaria satisfeito sabe como? Se o Daniel estivesse aqui. O Daniel não está aqui. Mas eu não sei quantos anos ele pegou de prisão, eu não sei em que cidade ele está preso, eu não sei nada. E prefiro não saber, não quero nem que você me fale. Se eu estou satisfeito? Eu não estou satisfeito com nada, não. Eu estou indignado com o que aconteceu. Não tem justiça que pague uma pessoa que morreu.



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