Tentativa de renovação e raízes africanas: Itália tem nova realidade em busca de voltar à Copa

Veja detalhes do novo ciclo da seleção italiana, que começa nesta sexta. Jornalista cita pessimismo: "Não se fala de Seleção. Os jovens estão apaixonados por Sinner, no tênis, e Antonelli, na F1"

| GLOBOESPORTE.COM / CAíQUE ANDRADE


Michael Kayode, do Brentford, e Caleb Okoli, do Leicester, são estreantes na seleção da Itália — Foto: Reuters
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Depois de três vexames, em 2018, 2022 e 2026, a Itália começa nesta sexta-feira, em duelo contra a Bélgica, um novo ciclo em busca de voltar a disputar uma Copa do Mundo . Apesar de ser tetracampeã mundial e uma das seleções mais tradicionais de todos os tempos, o momento é totalmente diferente. Pessimismo e desinteresse tomam conta dos torcedores que parecem terem cansado de esperar uma seleção à altura da história da equipe.

Veja a tabela completa da Liga das Nações

Em meio a esta desconfiança, o técnico Roberto Mancini inicia seu segundo trabalho à frente da Itália. E já começa o ciclo com grande desafio: o difícil grupo A1 da Liga das Nações, que conta também com Bélgica, França e Turquia, três seleções que disputaram a última Copa do Mundo e nos últimos anos estão mais bem cotadas que a italiana.

O técnico Roberto Mancini, responsável pela conquista da Euro 2021, abandonou o trabalho após não classificar o time para a Copa de 2022, mas volta agora ao comando da Itália e convoca nove estreantes. Ao todo, são seis descendentes de africanos, algo que já é muito comum em outras seleções, como a França, mas representa uma quantidade nunca antes vista na Itália .

O ge te mostra agora mais detalhes da nova realidade da seleção italiana e da tentativa de renovação para mais um ciclo em busca de voltar ao Mundial.

Tentativa de renovação

Uma geração de torcedores mais jovens nem sequer assistiu a um jogo da Itália em Mundiais. Da mesma forma, jogadores italianos já experientes seguem sem nunca terem disputado uma Copa, além de acumularem vexames, o que gera uma necessidade de renovação forçada. Só seis jogadores da convocação atual estavam no título da Eurocopa, em 2021, provavelmente o único momento de alegria na seleção italiana nos últimos 20 anos.

A pressa para renovar já levou a Itália a medidas desesperadas, como procurar jogadores brasileiros e argentinos, com passaporte italiano, para servirem à seleção. Na atual convocação, vemos nove estreantes: Pessina, Ghilardi, Romano, Sebastiano Esposito, Vergara, Kayode, Kouadio, Doumbia e Zoma.

Os quatro últimos são descendentes de africanos, algo natural com as transformações demográficas e sociais das últimas décadas no país. Por volta dos anos 1980, a Itália deixou de ser um país de emigração para se tornar um dos principais destinos de imigrantes na Europa.

Além deles, o zagueiro Honest Anahor e o atacante Moise Kean completam a lista de atletas com descendência africana dentre os 34 convocados.

— A Itália agora é cosmopolita, multidimensional etnicamente, como a Europa, como o Brasil, como a Austrália... A Espanha um pouco menos. Portugal, obviamente, com as suas antigas colônias. É como a Inglaterra. Igual à França. Um dia a França jogou com todos os jogadores com outras descendências ou origens... É o mundo que muda. Isso também acontece nas equipes — analisa Massimo Franchi.

Filho de brasileiro na convocação

Também tem um novato com nacionalidade brasileira na convocação. Samuele Inácio, de 18 anos, é atacante do Borussia Dortmund, e filho do brasileiro Inácio Piá, ex-jogador que fez carreira na Itália, com maior destaque no Napoli.

Olhando para o início do novo ciclo, ainda chama atenção a falta de jogadores de ataque em grande destaque no futebol europeu. A principal esperança é Pio Esposito, jovem atacante da Inter de Milão.

As ausências nas últimas três Copas do Mundo são consideradas as maiores derrotas da história italiana no futebol. E o atual treinador, Roberto Mancini, foi responsável por uma delas, em 2022. Isso já explica muito do porquê de o torcedor olhar para a situação com desconfiança e até certa indiferença.

Desconfianças no departamento de futebol

O ciclo da Itália se iniciou com muitas polêmicas e mudanças de percurso no primeiro ato, a definição do treinador e do diretor de futebol. Primeiro, o presidente da Federação Italiana (FIGC), Giovanni Malagò, definiu Maldini como dirigente, e o brasileiro Leonardo como conselheiro. Mas a primeira decisão da dupla foi barrada.

Pirlo (com currículo questionável) foi definido como novo técnico, e Malagò não permitiu. Isso graças à enorme pressão popular argumentando que o ex-volante tinha vínculos comerciais com uma estatal russa. Maldini e Leonardo não gostaram da decisão do presidente da FIGC e deixaram seus cargos.

Em poucos dias, toda a estrutura de futebol da Itália foi refeita, com Claudio Ranieri sendo definido como diretor, e Roberto Mancini voltando ao comando da Azzurra . Depois de tanta instabilidade e acúmulo de vexames, o torcedor italiano esperava um começo de ciclo com menos insegurança e mais credibilidade nas escolhas.

Enorme pressão e trabalho psicológico

A Itália perdeu as vagas nas últimas três Copas do Mundo em decisões de mata-mata, contra equipes que na teoria eram mais fracas. Em 2018, foi derrotada pela Suécia, que não tinha seu astro Ibrahimovic, que já havia se aposentado da seleção e se recuperava de grave lesão. Em 2022 perdeu para a Macedônia do Norte, e quatro anos depois, para a Bósnia, nos pênaltis.

A cada ciclo vexatório que acumula, a pressão só aumenta e a confiança do povo italiano diminui. O mesmo acontece com os jogadores, como revelou o atacante Pio Esposito, que perdeu um dos pênaltis da Itália na derrota para a Bósnia, nos playoffs deste ano. Em entrevista ao jornal italiano “Corriere della Sera', em abril, ele disse ter começado acompanhamento psicológico .

— Tive dificuldade para assimilar a decepção naquele momento, fiquei olhando fixamente para um ponto e não conseguia entender o que tinha acontecido, fiquei em choque. O primeiro pensamento que me veio à cabeça foi que eu havia decepcionado meus companheiros, o público em casa, os amigos e a família. Há alguns meses, comecei a trabalhar com um psicólogo esportivo. Falo com franqueza e o médico me dá conselhos práticos; ele me ajuda muito e eu gosto de me aprofundar nesse aspecto.

Priscila Mendes, psicóloga esportiva do Inter de Minas, clube que é parceiro oficial do Flamengo na formação de atletas, alerta para a necessidade do acompanhamento psicológico no futebol de alto nível.

— A parte psicológica tem grande importância, principalmente quando uma seleção tradicional acumula eliminações e passa a jogar com a sensação de que não pode errar novamente. Assim os atletas podem enfrentar alguns dilemas, como medo de falhar e de repetir eliminações anteriores; ansiedade, tensão muscular e dificuldade para tomar decisões; perda de confiança... Quando o medo de perder fica maior do que a vontade de competir, o jogador pode atuar de forma mais presa, evitar riscos e ter dificuldade para executar ações que normalmente realiza bem.

"A Itália precisa transformar a pressão pela classificação em responsabilidade compartilhada, e não em medo. O objetivo do trabalho psicológico não é eliminar completamente a ansiedade, mas ajudar os atletas a competir bem mesmo sentindo pressão", completa Priscila Mendes.

Apesar disso, a federação italiana não divulga nenhuma espécie de trabalho psicológico na seleção. O tema é um tabu histórico no país, como ressalta o repórter Massimo Franchi, em conversa com o ge.

— Se algo é feito, está tudo em segredo. Secreto. Não querem falar disso porque a Itália, você sabe, tem a tradição dos machos, desde o tempo de Júlio César. A Itália é sempre grande. Falar disso, que é muito interessante, seria quase uma admissão de não ter força mental suficiente para ganhar da Macedônia do Norte, da Bósnia ou da Suécia. Mas eles não querem dizer se foi feito um trabalho psicológico. Não querem dizer oficialmente — afirma o jornalista do TuttoSport.

A equipe estreia em casa contra a Bélgica, nesta sexta-feira, às 15h45 (de Brasília). O ge acompanha o duelo em tempo real. Depois, terá dois jogos como visitante, diante de Turquia e França. A sequência termina novamente como mandante, contra os turcos.



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