Saúde
Lula promete canetas emagrecedoras no SUS, mas não dá prazo
Estimativa da Conitec, órgão do Ministério da Saúde, aponta impacto de R$ 7 bilhões em cinco anos, mas queda dos preços pode alterar o custo de uma eventual oferta das canetas pelo SUS.
| G1 / POLIANA CASEMIRO
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, afirmou durante evento em Minas Gerais que as canetas emagrecedoras serão oferecidas de graça no Sistema Único de Saúde (SUS). A promessa ocorreu no mesmo dia em que anunciou o reajuste de 15% no Bolsa Família, que passa a valer em outubro. Entretanto, a oferta do medicamento no SUS não será imediata e depende de, ao menos, três etapas prévias que vão definir como e quem será beneficiado pelo medicamento.
"As canetas emagrecedoras vão ser oferecidas no SUS. Elas vão ampliar o acesso ao tratamento da obesidade, sempre com muita responsabilidade e protocolos médicos rigorosos, e proporcionar maior qualidade de vida para a população", afirmou o presidente em post nas redes sociais.
ETAPAS PENDENTES: Antes que o medicamento seja oferecido no SUS, é preciso que sejam superados três desafios:
Avaliação e recomendação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec), seguida da decisão formal do Ministério da Saúde;Criação de um protocolo de uso e de uma política pública para obesidade que ainda não existem em nosso sistema público de saúdeDefinição do impacto orçamentário e da fonte de recursos.
PRÓS, CONTRAS E IMPACTO DA MEDIDA: A medida é avaliada como necessária, pode exigir um orçamento bilionário, mas tem potencial de atingir milhões de brasileiros que evitariam as complicações da obesidade que têm um alto custo para o SUS.
Hoje, o Brasil não tem no SUS um medicamento para tratar a doença. A única opção é a cirurgia bariátrica, que tem o desafio da fila para o acesso. Para especialistas ouvidos pelo g1, a oferta do medicamento é uma necessidade: mais de 60% da população brasileira está acima do peso e cerca de 25% já enfrenta um quadro de obesidade, que também é fator de risco para outras doenças.
Após o anúncio de Lula, o Ministério da Saúde informou ao g1 que as canetas "vão ser implementadas de forma responsável". Na nota, o ministério não detalha quando o acesso ao medicamento deve estar disponível, impacto orçamentário ou as etapas pendentes antes da oferta.
O tema das canetas emagrecedoras - ou mesmo uma politicas específica sobre obesidade - não aparece no programa de governo de Lula registrado no TSE (saiba mais no podcast "O Assunto" sobre as propostas dos candidatos para a Saúde). Por outro lado, as canetas também não foram citadas por outros candidatos.
➡️ Por trás da fala do presidente, há uma série de movimentos que a pasta vem fazendo ao longo do ano:
O Ministério da Saúde pediu rapidez para a Anvisa nas aprovações de novas marcas no mercado nacional, o que ajudou a elevar de uma para 14 o número de versões de canetas emagrecedoras aprovadas em 2026. Iniciou um projeto-piloto com semaglutida em Porto Alegre, hoje restrito a cerca de 250 pacientes com obesidade grave.
Nenhum desses passos, porém, significa que o medicamento está perto de chegar de graça na Farmácia Popular ou nos postos de saúde do país.
Necessidade do medicamento na rede pública
Para o médico Neuton Dorenelas, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), a incorporação do medicamento ao SUS é necessária — mas precisa ser tratada como política de Estado, e não como decisão de governo ou pauta eleitoral.
"A incorporação desse medicamento é uma necessidade. Precisa ser feito com a garantia de continuidade do fornecimento, como uma política de Estado, não de governo, de partido, como algo eleitoreiro. É preciso garantir que vai ter distribuição para todo o país, de forma igualitária", afirma. (Leia mais abaixo)
Abaixo, o g1 elenca o que há de concreto sobre a caneta no SUS e o que ainda falta avançar para que ela seja acessível na rede pública.
O que há de concreto sobre as canetas no SUS?
Hoje, o único movimento concreto dentro da rede pública é um estudo-piloto, restrito a 250 pacientes na fila para a cirurgia bariátrica. São detalhes deste estudo que foram apresentados por Lula e Padilha no evento onde Lula assumiu o compromisso de oferecer as canetas no SUS.A pesquisa começou em 26 de junho deste ano e deve durar dois anos. Além desse estudo, não houve qualquer ampliação de acesso à semaglutida dentro do SUS.
O que existe, além do piloto, são movimentos no mercado privado que podem facilitar — mas não garantem — uma futura incorporação.
No início deste ano, caiu a patente que garantia à Novo Nordisk a exclusividade sobre a semaglutida, do Ozempic e Wegovy. Pouco antes do fim da exclusividade, o Ministério da Saúde pediu que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) acelerasse a análise dos pedidos de registro de empresas nacionais e estrangeiras que tentavam registrar o medicamento no país.
E funcionou: só esse ano foram 10 aprovações de semaglutida, entre elas duas genéricas – uma novidade no Brasil. O movimento refletiu no preço. Hoje, as doses iniciais são vendidas a R$ 300 na farmácia, valor bem abaixo dos quase R$ 1 mil cobrados pelo Wegovy, semaglutida da Novo Nordisk, até 2025.
Por trás desse movimento havia um motivo: o ministro Alexandre Padilha já falava em incorporar o medicamento à rede pública -- ainda que isso não esteja no atual plano de governo de Lula para o próximo mandato. Em 2025, antes mesmo da queda da patente, ele vinha anunciando uma parceria para produção de canetas próprias no SUS com a EMS — primeira farmacêutica nacional a ter o registro aprovado. Até agora, porém, essa parceria não saiu do papel.
O que ainda falta para chegar ao paciente?
Mas a inclusão de um medicamento não deve ser uma decisão apenas política ou de governo — são necessários ainda alguns passos:
Parecer favorável da Conitec
O primeiro deles é a avaliação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec). O órgão, ligado ao Ministério da Saúde, avalia se um novo tratamento deve — e como deve — entrar na rede pública, considerando eficácia, segurança e custo.
Na prática, a Conitec avalia o pedido de incorporação e seus impactos. O Ministério quase sempre segue a recomendação da Conitec — reverter uma recomendação da comissão é raro.
É dela que depende qualquer novidade agora. A comissão se reuniu no dia 4 de setembro e fontes ouvidas pelo g1 afirmaram que havia a possibilidade de a semaglutida ser discutida naquele encontro. A decisão, no entanto, acabou sendo adiada, e, segundo a apuração, teria ficado para depois das eleições.
A próxima reunião está marcada para 7 de outubro — data que só ocorre depois do primeiro turno. O anúncio feito por Lula não cita se isso está previsto ou quando deve acontecer. Tecnicamente, sem essa aprovação, o medicamento não pode estar acessível.
Mesmo que a Conitec dê parecer favorável à incorporação, isso não significa que o medicamento chegará de imediato aos postos e hospitais da rede pública.
Por exemplo: o Ministério da Saúde anunciou três medicamentos para câncer de pulmão no SUS. Dois deles tiveram pareceres favoráveis da Conitec em 2024 e 2025, mas só vão ficar disponíveis na rede este ano.
Impacto orçamentário
O anúncio de Lula não especifica qual substância seria oferecida pelo SUS, mas os estudos em curso usam semaglutida como base — o que a torna a candidata mais próxima de uma eventual incorporação.
Nem o presidente nem o Ministério da Saúde informaram, após o anúncio, se o impacto orçamentário da medida já foi calculado. Esse foi um dos entraves para, até agora, o medicamento não estar no SUS na decisão da Conitec.
Na ocasião, o órgão estimou o impacto considerando uma dose inicial de R$ 727,25. Com isso, considerando o uso contínuo, o impacto orçamentário acumulado em cinco anos seria de R$ 7 bilhões.
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