Policial
Gasolina é passado, agora Pix de R$ 500 faz eleitor pedir voto no Instagram
Relatos mostram propostas de pagamento por quinzena para divulgar candidaturas nas redes sociais
| MSNEWS/MYLENA FRAIHA / CAMPO GRANDE NEWS
A pouco mais de duas semanas da votação em que mais de 2 milhões de eleitores de Mato Grosso do Sul escolherão presidente, governador, senadores e deputados, a campanha continua nas ruas, com bandeiras e adesivos. Mas também ocupa os perfis pessoais de quem trabalha para as candidaturas. Eleitor que antes trocava voto por gasolina, agora leva Pix por post no perfil.
Em entrevistas ao Campo Grande News, quatro cabos eleitorais relataram que recebem ou receberam propostas de pagamento para compartilhar propaganda no Instagram e no WhatsApp. Em alguns casos, a tarefa consiste em publicar um story com material pronto. Os valores mencionados vão de R$ 200 por quinzena a R$ 500 por quinzena, conforme as atividades exigidas.
As publicações incluem artes com números de candidatos, vídeos, jingles e filtros para fotos de perfil. Nos stories do Instagram e nos status do WhatsApp, o conteúdo desaparece após 24 horas. Segundo os entrevistados, as peças costumam ser produzidas pelas equipes das campanhas e encaminhadas em grupos com orientações sobre quando e onde publicá-las.
Um cabo eleitoral de 32 anos conta que trabalha remotamente para uma candidatura do Republicanos e coordena um grupo de 15 pessoas nas redes sociais. Ele participa de campanhas desde 2012, mas diz que, neste ano, tem pouco tempo para atividades presenciais. “Trabalho especificamente de forma remota, realizando postagens e indicando para um pequeno grupo quais serão as publicações', afirma.
Segundo ele, os integrantes devem compartilhar o material enviado pela equipe de mídia. Não têm autorização para responder a ataques em nome do candidato nem para produzir, por conta própria, artes e vídeos oficiais. O entrevistado diz que negociou as tarefas antes de aceitar o trabalho.
'Me falaram o que queriam pagar e eu respondi o que eu faria por aquele valor. Entramos em acordo', explica o homem de 32 anos. Ele afirma receber R$ 500 por quinzena, via Pix, e ter sido cadastrado para a prestação de contas da campanha.
Para uma artesã de 41 anos, esta será a segunda campanha feita pelas redes sociais. Ela conta que, em 2022, recebia R$ 300 por mês para publicar propaganda de um deputado nos stories. Neste ano, aceitou uma proposta de R$ 200 por 15 dias para divulgar uma candidatura do PP e participar de uma reunião por semana.
Antes, recebeu um convite de outra campanha, que oferecia R$ 350, mas exigia presença em todas as reuniões. “Aí não dá para mim, atrapalha minha rotina. Dessa forma, só postando mesmo, é a melhor maneira de trabalhar com isso e continuar fazendo as minhas coisas', diz. Ela afirma que já pretendia votar no candidato do PP antes de aceitar a proposta.
Em outra campanha, uma estudante de 18 anos relata que foi convidada pela direção de sua atlética universitária a publicar material de candidaturas do PP e do União Brasil. O convite, segundo ela, foi apresentado como uma oportunidade de ganhar dinheiro e arrecadar recursos para a entidade. Pelo menos dez integrantes de sua atlética aderiram à ação.
“Contrataram a gente só para postar nas redes sociais. Eles mandam o que é para postar no grupo, onde estão os presidentes de várias atléticas, e a gente tem que postar', conta. Ela diz que costuma receber o aviso cerca de duas horas antes da publicação, geralmente marcada para o meio-dia ou para as 18h. Depois, precisa enviar um print do conteúdo publicado no perfil pessoal.
Segundo a estudante, foi informado ao grupo um valor de R$ 5 mil, além de R$ 1 mil pela participação em uma reunião. Pela divisão definida na atlética dela, cada participante ficaria com R$ 200 e o restante seria destinado à entidade. Ela afirma que ainda não sabe como o pagamento será feito.
Já a quarta entrevistada, uma mulher de 34 anos, diz que atuou para duas candidaturas do PL tanto nas ruas quanto nas redes sociais. Ela participou de adesivagens e segurou bandeiras na Avenida Afonso Pena, além de compartilhar propaganda no Instagram, Facebook e WhatsApp.
“Falavam para a gente: ‘Gente, posta no WhatsApp, Instagram, Facebook, porque os coordenadores e os líderes estão de olho na gente’', relata a mulher de 34 anos.
Segundo ela, os materiais chegavam pela manhã, acompanhados de avisos de que quem deixasse de publicar poderia ser desligado ou correr o risco de não receber. Não havia, porém, uma orientação sobre quanto tempo o conteúdo deveria permanecer no ar. Ela diz que costumava deixá-lo nos stories até desaparecer.
Nesse caso, o pagamento tornou-se motivo de conflito. A entrevistada afirma que a equipe foi informada de que receberia parcelas de R$ 400, mas os valores previstos para 30 de agosto e 10 de setembro não foram pagos.
Segundo seu relato, os líderes suspenderam as atividades do grupo enquanto aguardavam o dinheiro. Ela afirma ainda que integrantes de outra equipe, encarregados apenas de publicações online, receberiam R$ 300.
Postagem nem sempre significa voto
Os relatos mostram situações diferentes. A artesã afirma que já pretendia votar no candidato do PP antes de aceitar o trabalho. Para outras duas entrevistadas, porém, o apoio exibido nas redes não corresponde à escolha que planejam fazer na urna.
A estudante que publica material das candidaturas do PP e do União Brasil se define como de esquerda e diz que não votará em nenhuma delas. “Vou votar nos que eu me identifico', afirma.
Ela também conta que não mantém as publicações pelo período completo dos stories. “Eu arquivo, porque odeio postar coisa de político. Deixo por umas três a cinco horas e depois arquivo'.
A entrevistada de 34 anos se considera de direita e diz que entrou na campanha do PL para obter uma renda extra. Inicialmente, pensava em votar em uma das candidaturas após pesquisar suas propostas. Mudou de ideia por causa dos pagamentos que afirma não ter recebido.
“Se ela não foi capaz de honrar as pessoas com quem estava trabalhando para poder se eleger, não vai honrar o trabalho posteriormente', avalia. Ela diz que também não pretende votar na outra candidatura para a qual trabalhou.
[**] Os nomes dos entrevistados e das candidaturas foram preservados para proteger a identidade das fontes e a liberdade de escolha do voto.
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