Brasil/Mundo
Mãe ajudou muitos a vencer o vício, mas perdeu o filho para as drogas
Dhyogo morreu aos 24 anos após uma longa luta contra a dependência química e uma tuberculose
| CLAYTON NEVES / CAMPO GRANDE NEWS
Janete Marques passou os últimos cinco anos ajudando pessoas em situação de vulnerabilidade. À frente de uma clínica que acolhe dependentes químicos e pessoas em situação de rua, ela já viu centenas de histórias de recomeço. Hoje, são 208 pessoas sob seus cuidados. Mas, entre tantas vidas que tentou ajudar, a do filho Dhyogo foi a que ela mais queria salvar, mas acabou perdendo o jovem que esbanjava alegria para as drogas.
Aos 24 anos, Dhyogo morreu depois de anos enfrentando a dependência química. A doença começou cedo, por volta dos 14, e atravessou boa parte da vida dele.
No caminho, ele passou por tratamentos, períodos de abstinência, chegou a fazer faculdade de Direito, teve filhos, mas também passou por recaídas. Tudo isso em meio à luta incansável da família para trazê-lo de volta. “Eu ajudo tanta gente e não consegui ajudar meu filho', resume a mãe, que ainda lida com a dor da partida precoce do filho.
Janete conta que fez tudo o que estava ao alcance para ajudá-lo. O marido, Milton Marques, que já trabalhava na clínica havia cerca de 20 anos quando os dois se casaram, também participou da luta. Foi justamente no espaço que Dhyogo conheceu Milton, ainda adolescente, quando foi acolhido pela primeira vez.
Dhyogo tinha apenas 15 anos quando passou pelo primeiro tratamento. Ficou um ano na clínica e, depois de sair, voltou a usar drogas. Mais tarde, passou novamente por tratamento e conseguiu ficar quatro anos sem usar.
“Nessa época ele chegou a fazer três anos de Direito e era um dos melhores alunos. Ele só tirava 10, você precisava ver o boletim dele. Era a coisa mais linda', lembra Janete.
O rapaz tinha inteligência e planos. Primeiro, sonhava em ser piloto de avião. Depois, queria ser policial. Mas a dependência voltou a fazer parte da história e acabou interrompendo os planos.
Antes da droga, a alegria - Para Janete, seria injusto resumir Dhyogo à dependência química ou à doença que tirou sua vida. Dos três filhos, ele era o do meio e, desde pequeno, tinha fama de ser o mais manhoso e chorão. Era também aquele que conseguia arrancar tudo da mãe.
A personalidade brincalhona também era uma marca. Janete diz que, se alguém tentasse tirar dez fotos do filho, em nove ele estaria fazendo alguma graça ou careta. “Perto dele ninguém ficava triste, perto dele ninguém ficava sem sorrir', destaca.
O carinho era tanto que, mesmo adulto, continuava sendo visto pela mãe como o seu bebê. Dhyogo também era pai de dois meninos, Joaquim e Isaac, que tinham pouco mais de um ano quando ele morreu.
“Ele era apaixonado pelos filhos. Eu achava que a paternidade poderia ajudar ele a abandonar as drogas, mas nem isso foi suficiente para vencer a dependência', conta.
Os últimos meses foram especialmente difíceis. Dhyogo passou a viver praticamente em situação de rua e estava muito debilitado. “Eu tenho uma clínica que eu cuido das pessoas em situação de rua e não consegui cuidar do meu filho', diz Janete.
Naquele momento, ele já sabia que estava doente. Tinha tuberculose e, segundo a mãe, chegou a dizer que preferia morrer a permanecer na clínica.
“Eu fiz um plano de saúde, tentei levar ele ao médico para que ele fizesse alguns exames. Ele fez alguns, tomou alguns remédios, mas não conseguiu manter o tratamento certinho', detalha.
Com o tempo, a doença se agravou. “Quando ele estava comigo, eu cuidava. Mas daí, quando ele resolveu ir embora e ir para a rua e usar droga, aí já ficava mais difícil de cuidar', explica.
A morte de Dhyogo deixou em Janete uma dor que ela não imaginava conhecer. Mas também reforçou uma mensagem que ela tenta levar para outras famílias que enfrentam a dependência química.
Na clínica, ela percebe diariamente como as mães continuam próximas dos filhos. Segundo Janete, em datas como o Dia das Mães, a maioria dos acolhidos recebe lembranças enviadas pelas mães, enquanto poucos recebem dos pais.
Por isso, o pedido dela é principalmente para outras mulheres que vivem uma situação parecida. “Não desistam dos seus filhos', alerta.
Ela reconhece que chega um momento em que a família se sente esgotada, depois de tantas tentativas frustradas. “A vontade pode ser deixar que o filho se vire para aprender com os próprios erros, mas abandonar não é a solução. Às vezes, eles acham que a gente desistiu deles e acabam se enfiando mais ainda no mundo das drogas', aconselha.
A própria história de Dhyogo mostra o quanto essa luta pode ser longa. Foram anos entre tratamentos, recaídas e tentativas de recuperação. Janete esteve presente sempre que conseguiu.
O marido costuma lembrá-la de que ela não deve carregar a culpa pela morte do filho. “Ele lembra que tentei tudo o que poderia ter tentado, fiz tudo o que você poderia ter feito', conta.
Ainda assim, para uma mãe, saber que tentou tudo não diminui a saudade. Dhyogo morreu jovem, deixando dois filhos pequenos e uma família que ainda tenta aprender a lidar com a ausência. Para Janete, porém, a história dele não pode terminar na dependência química.
“Meu filho era lindo. Lindo demais. Tinha um sorriso maravilhoso e um jeito que iluminava os lugares. Amei incondicionalmente independente de qualquer coisa', finaliza Janete.
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