Região
UCP fecha Medicina na fronteira e alunos alegam insegurança e altos valores de transferência
| DOURADOSNEWS / FABIANE DORTA
A UCP (Universidade Central do Paraguai) fechou a faculdade de medicina em Pedro Juan Caballero, cidade paraguaia gêmea da brasileira Ponta Porã. Na mesma estrutura física e de profissionais, o curso passou a ser ofertado pela Universidad Interamericana. No entanto, por se tratar de uma nova empresa, essa mudança impôs escolhas aos mais de sete mil alunos matriculados, alguns, relatando dificuldade em conseguir a transferência.
Esse fechamento teria sido resultado do fim da sociedade entre os gestores da unidade da UCP em Pedro Juan. A estrutura na fronteira teria ficado com uma das partes e um acordo firmado para a transferência dos alunos entre as instituições.
Os que decidissem ficar nas mesmas instalações, mas estudando em outra faculdade, poderiam fazer a transferência para a Interamericana sem custo. Já os que optassem por permanecer na UCP, teriam suporte para mudar para outra unidade da instituição, sendo as opções Assunção, capital do Paraguai, ou Ciudad del Este que fica na fronteira com o Brasil em Foz do Iguaçu (PR).
De acordo com a assessoria de comunicação da Interamericana, dezenas de estudantes já fizeram a migração para as demais cidades paraguaias e o prazo para a transferência para a Interamericana pode ser feito a qualquer momento.
PARA OUTRAS INSTITUIÇÕES
Para além dessas alternativas, os estudantes podem pedir a transferência para outras instituições que também atuam em Pedro Juan Caballero. No entanto, há quem alega enfrentar dificuldades para conseguir a documentação necessária.
É o caso da Victoria Locatelli Lima, de 24 anos. Segundo ela, ao procurar a faculdade para pedir a transferência foi informada de que o valor seria de Gs 8 milhões ou R$ 7 mil, valor acima dos dos Gs 6 milhões, o equivalente a cerca de R$ 5,2 mil, previstos em contrato. Ela estuda na instituição há três anos.
A acadêmica alega que ao pedir uma justificativa a universidade acerca do aumento de valor, teria sido informada de que eles teriam autonomia para fazer esse reajuste a qualquer momento e não teriam entregue um documento que formalize a alta. Victoria ainda alegou que depois disso, o valor teria mudado para Gs 15 milhões, quase R$ 13 mil.
Quem mantém a Victoria em Pedro Juan são os pais, um entregador e uma professora moradores em Costa Rica, no Norte do Estado. Ela lembra que chegou a passar no vestibular para mais de quatro faculdades particulares de Medicina no Brasil, mas os valores de mensalidade e demais gastos, não eram compatíveis com a situação financeira da família.
Para realizar o sonho da filha que desde criança quis fazer medicina, eles os pais disseram a ela para fazer o curso no Paraguai que dariam um jeito de mantê-la. O casal teria dito a Victoria que faria o pagamento, mas para isso teriam que fazer um empréstimo.
“Não é como se tivesse sido avisada um ano antes para os meus pais se programarem. Meus pais vão ter que fazer um financiamento do nada”, relata. “Meu pai é aquele cara que tem que entregar a mercadoria na chuva, porque não tem opção, porque senão ele vai ser demitido. Então assim, os meus pais fazem de tudo por mim, e aí meus pais terem que fazer um financiamento por puro descaso e falta de responsabilidade da faculdade, para mim, é uma dor no coração”, afirma ela que disse ter sido informada oficialmente pela instituição há pouco mais de um mês sobre a mudança.
Migrar para outra cidade também não seria simples para a jovem. Além de vender todos os móveis e o carro antigo que ganhou dos pais, a distância faria com que estivesse menos vezes próxima da família. Além disso, o custo de vida em Ciudad del Este é mais alto.
DOCUMENTAÇÃO
O receio de Victoria em permanecer na Interamericana é o mesmo de Alyne Nascimento de Lima, de 38 anos, que é acadêmica do 5º semestre de medicina e alega ter debruçado a estudar a legislação paraguaia nos últimos meses.
Ela faz vídeos para redes sociais falando sobre documentação e selos necessários para o aluno estudar de forma segura no país vizinho que atrai muitos brasileiros pelo valor das mensalidades. Em um dos conteúdos falou sobre a mudança nas instituições, alcançando milhares de acessos, o que teria levantado o tema.
“Agora a faculdade começou a perder muitos alunos e começou a apertar o pé, em perder documentação, em cancelar nota de aluno, a omitir, não entregar a documentação original que os alunos deram, tudo para prejudicar a ida para outra instituição e, por fim, o aumento expressivo no valor do documento de transferência, já sabendo que muitos já tinham saído”, afirmou Alyne.
Ela explica que para que haja acreditação do curso pelo Cones (Conselho Nacional de Educação Superior) e a Aneaes (Agência Nacional de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior), para que seja feita a revalidação do diploma no Brasil ou outro país.
No dia 17 de março deste ano, a Interamericana recebeu uma habilitação provisória do Cones. No entanto, segundo Alyne que também é advogada, a instituição precisa seguir uma série de requisitos até receber a acreditação. Entre esses, estão prazos que colocam em dúvida a possibilidade de o curso estar em conformidade com os critérios estabelecidos pela legislação paraguaia, a tempo de entregar um diploma em condições para revalidação.
O QUE DIZ A INTERAMERICANA
Através da assessoria de comunicação, a Interamericana informou que o caso de cada aluno tem sido tratado de forma individual. Conforme a instituição, as transferências estariam sendo negadas somente quando há pendências por parte do estudante, sejam acadêmicas ou financeiras.
No caso de disciplinas por fazer, por exemplo, alega que seria um impedimento imposto pelo próprio MEC (Ministério da Educação e Ciências) paraguaio.
As entrevistadas pelo Dourados News alegaram que não têm esses impedimentos.
Em nota, a Interamericana informou que todo o andamento documental da instituição é feito com respaldo das instituições de educação paraguaias.
Leia a nota na íntegra:
“Diante das recentes manifestações a respeito do processo de transferência de estudantes da Universidade Central do Paraguai (UCP) para a Universidad Interamericana, a instituição esclarece, reforça e tranquiliza a comunidade acadêmica sobre a total regularidade e validade jurídica da migração.
A Universidad Interamericana destaca que a mudança de nomenclatura e alunos entre instituições privadas é um procedimento comum e perfeitamente previsto no sistema educacional.
A universidade reforça que todo o processo é amparado pelo Ministério da Educação e Ciências (MEC) do Paraguai e conta com a plena supervisão dos órgãos reguladores do país. Entre as instâncias que acompanham o processo estão o Conselho Nacional de Educação Superior (Cones) e a Agência Nacional de Avaliação e Acreditação da Educação Superior (Aneaes), autoridades responsáveis por garantir a qualidade, o suporte técnico e a conformidade legal de todos os cursos de ensino superior em território paraguaio.
O Cones (Conselho Nacional de Educação Superior) é o órgão máximo de regulação do ensino superior paraguaio.
Com a responsabilidade de zelar pela qualidade da educação superior no país, o Cones detém o poder de credenciar e avaliar as instituições de ensino superior, definindo os padrões e normas a serem seguidos.
Com o respaldo técnico-educacional dos órgãos governamentais, a Universidad Interamericana assegura a continuidade da formação dos estudantes com a máxima transparência e rigor acadêmico.
Em relação ao ato de transferência, assim como todo aluno tem seu direito assegurado, as instituições de ensino superior, indistintamente, têm assegurado o direito de regular esse procedimento a qualquer tempo, sob análise e critérios sempre respeitando as diretrizes do Ministério da Educação para esse regime acadêmico entre as universidades e do Cones e Aneaes.
Ressalta-se, nesse aspecto, que recentemente a Universidad Interamericana recebeu inspeção técnica do Conselho Nacional de Educação Superior, acompanhando e avaliando a qualidade educacional, acadêmica, infraestrutura e todos os demais quesitos previstos no respectivo procedimento.
As declarações sobre transferências seguem interesses escusos e meramente comerciais, em ato “patrocinado” por instituições cuja credibilidade é motivo de dúvidas e questionamentos.
A divulgação, por si só, de material partindo de pessoas com fins específicos e sem qualquer credibilidade ou credenciamento oficial para tal, já demonstra os interesses por traz dessas manifestações.
A Universidad Interamericana reafirma e reitera seu alto grau de comprometimento com a Educação de Qualidade, Responsabilidade respaldada pela infraestrutura de ensino de medicina, reconhecida por instituições do Paraguai e de toda a América do Sul”.
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