Brasil/Mundo
Calor extremo na Europa é prelúdio do que Brasil e Mato Grosso do Sul enfrentarão no verão
| O JACARé/BY SANDRA LUZ, DE PORTUGAL
A Europa viveu na última semana mais um alerta contundente de que o calor extremo deixou de ser um evento excepcional para se tornar uma realidade recorrente. Portugal já havia sofrido com cinco ondas de calor em 2026, totalizando 59 dias com temperaturas pelo menos 5°C acima da média, segundo o jornal Expresso. O maior número de dias de onda de calor já registrado no país é de 80 em 2023, seguido por 72 em 2025 e 66 em 2020. Enquanto o continente registra recordes históricos de temperatura — com Alemanha, Hungria, Polônia, Áustria e Reino Unido batendo marcas inéditas para o mês de junho —, o que se vê é um prelúdio do que o Brasil, com destaque para Mato Grosso do Sul e Campo Grande, enfrentará no verão próximo.
Ondas de calor consecutivas atingiram a Europa Ocidental, Central e Meridional, com temperaturas que ultrapassaram os 40°C em diversos países. A Alemanha registrou 41,7°C em Coschen, no leste do país, próximo à fronteira com a Polônia, com 252 estações meteorológicas batendo recordes históricos. A Hungria registrou 40,7°C perto de Budapeste. O Reino Unido bateu recorde de temperatura para junho por três dias consecutivos, com 37,3°C no sul da Inglaterra.
O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou que mais de 1.300 mortes em excesso foram registradas desde 21 de junho, relacionadas ao calor extremo na Europa, com mais de 150 milhões de pessoas afetadas no continente.
Na França, as temperaturas subiram acima de 40°C por vários dias em muitas regiões. Milhares de escolas fecharam, o transporte foi interrompido e os hospitais ficaram sobrecarregados. Na Inglaterra, os serviços ferroviários foram prejudicados pelo superaquecimento da infraestrutura, e as cidades enfrentaram noites perigosamente quentes. Na Áustria, Viena registrou 40°C, com alerta vermelho mantido pela Geosphere Austria. Na Dinamarca, foi registrada uma nova temperatura máxima histórica de 37°C, quebrando um recorde estabelecido em 1975.
“Ondas de calor como esta são o que esperamos ver em um clima em mudança”, disse John Kennedy, chefe de informações climáticas da Organização Meteorológica Mundial (OMM). “Nos 50 anos desde a onda de calor histórica de 1976, a Europa como um todo aqueceu cerca de dois graus. É o continente que está aquecendo mais rapidamente e os extremos de temperatura também aumentaram.”
A onda de calor que se deslocou da Península Ibérica sobre a Europa é um sinal do que está por vir para o Brasil, especialmente para o Centro-Oeste. O cenário europeu — com noites perigosamente quentes, infraestrutura não adaptada, populações idosas vulneráveis e sistemas de saúde sobrecarregados — deve ser encarado como um ensaio do que o verão brasileiro pode trazer.
Em Mato Grosso do Sul, os efeitos do calor não são propriamente uma novidade, mas a situação tende a piorar. O relatório “Estado do Clima, Extremos de Clima e Desastres no Brasil em 2025”, divulgado em fevereiro de 2026 pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), já apontou que o Estado registrou temperaturas extremas no ano passado. Campo Grande chegou a 38,7°C em setembro, enquanto Coxim e Pedro Gomes registraram 41,3°C e 40,9°C, respectivamente. Porto Murtinho atingiu 42,1°C em janeiro, superando o recorde anterior de 41,8°C.
Assim como na Europa, onde apenas cerca de 20% dos lares possuem ar-condicionado e as noites quentes impedem o corpo de se recuperar do calor diurno, as cidades brasileiras enfrentam desafios semelhantes. O envelhecimento reduz a capacidade do corpo de regular a temperatura, e doenças crônicas, isolamento social e renda limitada dificultam a manutenção de uma temperatura corporal adequada — fatores que também afetam a população idosa no Brasil.
O relatório do Cemaden identificou sete ondas de calor ao longo de 2025 no Brasil, com forte concentração em janeiro e fevereiro, além de episódios em março, setembro e no final de dezembro. O ano de 2025 foi o terceiro mais quente já registrado no planeta, com temperatura média global de 14,97°C — valor 1,47°C acima do nível pré-industrial.
Os episódios de calor mais severos no final do ano foram observados no Sudeste do Brasil, onde as temperaturas ultrapassaram os 35°C e duraram mais de nove dias. No Sul do Brasil, as temperaturas do ar ultrapassaram os 40°C durante o verão, refletindo as condições extremas da onda de calor naquela região.
Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), espera-se que as ondas de calor extremas ocorram com frequência, intensidade e duração crescentes. A Europa, que está aquecendo mais rapidamente do que qualquer outro continente, já está sentindo os efeitos — e o Brasil, com destaque para Mato Grosso do Sul, deve se preparar para uma realidade semelhante.
Assim como na Europa Oriental, onde edifícios e serviços públicos não foram projetados para o calor extremo e as casas geralmente não têm refrigeração, as cidades brasileiras também enfrentam o desafio de se adaptar. Em países onde eventos prolongados de calor extremo são relativamente raros, as pessoas estão menos habituadas a alterar rotinas diárias, limitar atividades ao ar livre durante as horas mais quentes ou reconhecer os primeiros sintomas de doenças relacionadas ao calor.
A onda de calor na Europa não respeita fronteiras — e o mesmo ocorrerá no Brasil. Trata-se de um exemplo clássico de risco sistêmico e em cascata: um único evento climático extremo desencadeia impactos interligados na saúde pública, nos sistemas alimentares, na energia, na água, nos transportes e na economia em geral.
A OMM e seus membros estão se mobilizando com alertas precoces e planos de ação coordenados para lidar com o calor e a saúde, a fim de salvar vidas e minimizar danos econômicos. No Brasil, o Cemaden já realiza reuniões mensais de avaliação e previsão de impactos de extremos de origem hidro-geo-climática, contribuindo com o conhecimento técnico-científico para subsidiar políticas públicas e a gestão de riscos.
À medida que o calor extremo se torna um dos principais riscos climáticos, a adaptação deve ser encarada não como uma resposta sazonal, mas como um investimento essencial em saúde pública, infraestrutura crítica e resiliência a longo prazo — tanto na Europa quanto no Brasil.
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