Agronegócios
Reconhecimento da China coloca Brasil em novo patamar sanitário e amplia horizonte da pecuária de MS
Para o economista Hudson Garcia, decisão fortalece a cadeia da proteína animal, abre portas para novos mercados e amplia o potencial de Mato Grosso do Sul na terminação de bovinos
| A CRíTICA
O reconhecimento de todo o território brasileiro como área livre de febre aftosa sem vacinação pela China representa, na avaliação do economista e sócio da Agricon Consultoria, Hudson Garcia, uma mudança de patamar para a pecuária nacional e, em especial, para Mato Grosso do Sul.
Em entrevista ao Giro Estadual de Notícias nesta segunda-feira (8), ele afirmou que a decisão encerra uma discussão sanitária que se arrastava havia mais de duas décadas e abre uma nova janela para a competitividade brasileira no mercado internacional de proteína animal.
Segundo Hudson, o peso da decisão é прежде de tudo econômico. Para ele, trata-se de um avanço estrutural que vai além de um efeito pontual de curto prazo. “Nós estamos falando em encerrar uma discussão de mais de 20 anos. A medida retira restrições que ainda limitavam a movimentação de animais entre unidades da federação e reforça a posição do país diante de mercados altamente exigentes em sanidade animal', explica.
Embora MS já fosse considerado área livre de aftosa sem vacinação, o economista lembrou que ainda existiam barreiras relacionadas ao trânsito de gado vindo de outros estados que não possuíam o mesmo status sanitário. “Com o novo reconhecimento, essa trava deixa de existir, já que beneficia diretamente o modelo produtivo sul-mato-grossense. Agora eu posso adquirir, por exemplo, bezerros do Pará, eu posso adquirir bezerros de outras localidades e posso fazer terminação aqui', explicou.
O economista afirmou que o Estado já se consolida como um grande terminador de carcaça voltado ao mercado asiático e que a liberação amplia a capacidade de agregar valor dentro do próprio território sul-mato-grossense. Em vez de apenas produzir ou comercializar animais, o Estado ganha espaço para intensificar uma etapa da cadeia que envolve mais estrutura, mais tecnologia e maior valor econômico.
Na análise dele, o novo status sanitário obtido perante a China também funciona como uma espécie de passaporte para outros destinos. Como o mercado chinês é um dos mais rigorosos do mundo em exigências sanitárias para proteína animal, a chancela abre portas para países com critérios semelhantes, mas menos rígidos. Hudson citou, entre eles, Vietnã, Indonésia e outros mercados do Pacífico e do entorno asiático. “Quando nós observamos uma China que nos dá autorização, nós podemos atender outros mercados que têm exigências também sanitárias, mas que não sobrepõem ao mercado chinês', disse.
Ao mesmo tempo, ele ponderou que a novidade não deve ser lida apenas pela ótica da exportação imediata. Na avaliação do economista, o reconhecimento cria ambiente mais favorável para investimentos em genética, tecnologia, capacitação profissional e infraestrutura voltada à cadeia da carne. Isso ocorre porque a possibilidade de acessar mercados mais valorizados exige padrões mais altos de manejo, rastreabilidade e eficiência produtiva. “Melhor é o gado, tem uma melhor genética, consequentemente envolve mais tecnologia, envolve mais investimento e exige pessoas mais capacitadas', afirmou.
Esse movimento, segundo o economista, tende a produzir efeitos para além do campo. “Haverá impacto indireto sobre pequenas economias locais, com reflexos sobre agropecuárias, supermercados, frigoríficos e prestadores de serviço instalados em municípios fortemente ligados à bovinocultura, como Dourados, Nioaque e Rio Verde', detalha. Para ele, quando a cadeia da proteína animal gira com mais intensidade e valor agregado, a renda se espalha por diferentes segmentos. “Isso significa investimento lá no município, lá naquele pequeno município que pode agregar valor para todas as pessoas que moram lá', complementa.
Na visão do economista, o reconhecimento sanitário também ajuda a reposicionar o Brasil em um momento em que o mercado interno enfrenta pressões inflacionárias e perda de poder de compra. Nessa conjuntura, o mercado externo funciona como alternativa para sustentar a dinâmica da cadeia produtiva e preservar a atratividade econômica do setor.
Entenda – A China reconheceu oficialmente o Brasil como país livre de febre aftosa sem vacinação. A decisão, confirmada na última terça-feira (2), representa um importante avanço para o fortalecimento das relações sanitárias e comerciais entre os dois países.
O reconhecimento é resultado das tratativas conduzidas pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) durante a missão oficial do ministro André de Paula à China, realizada em maio deste ano. Em reuniões com autoridades chinesas das áreas de Agricultura e Comércio, foram apresentados os avanços do sistema brasileiro de defesa agropecuária e reforçado o pleito pelo reconhecimento do status sanitário nacional.
A decisão ocorre um ano após a Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) reconhecer o Brasil como país livre de febre aftosa sem vacinação, consolidando décadas de trabalho dos serviços veterinários oficiais, dos produtores rurais e dos governos estaduais em prol do fortalecimento da sanidade animal.
Para o ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, o reconhecimento reflete os resultados do diálogo técnico e institucional mantido entre os dois países. “Hoje o dia começou com uma grande notícia. Logo no início da manhã, o ministro Mauro Vieira confirmou que a China reconheceu oficialmente o Brasil como país livre de febre aftosa sem vacinação. Esse foi um dos principais temas que levamos como prioridade durante nossa recente missão à China. Tivemos reuniões longas e produtivas com os ministros da Agricultura e do Comércio, e essa era uma das reivindicações mais importantes que apresentamos. Por isso, temos razões de sobra para celebrar esse resultado', afirmou.
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