Por Kaily Yada - Fila da Reclamação Fica à Esquerda

| POR KAILY YADA


Kaily Yada
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Fila da Reclamação Fica à Esquerda


Sim, eu sou nerd,
e daí?
Sou otaku assumida,
e com muito orgulho das minhas madrugadas
vendo anime em vez de discutir vida alheia.
Leio quadrinhos como quem respira,
porque heróis de papel ainda valem mais
que muita gente de carne e osso.

E sim,
eu amo maquiagem.
Amo glitter,
amo delineado que parece asa de anjo
e, às vezes, asa de morcego,
depende do humor.
Minha prateleira tem mais paletas
que muita igreja tem hinário.
E está tudo bem.

Sou a doida dos bichos,
a que conversa com cachorro,
a que faz carinho em gato de rua,
a que resgata até o que não pediu resgate.
Se for pra escolher entre gente chata
e um cachorro sincero,
já sabe quem ganha, né?

Mas acima de tudo —
muito acima,
infinitamente acima —
eu sou serva de Deus.
Essa é a parte que ninguém muda,
que ninguém questiona,
que ninguém apaga.
Minha fé não cabe no bolso de ninguém,
não depende da aprovação de ninguém
e não se mede pela opinião de gente amarga.

Eu me amo como sou.
E se você não gosta,
entra na fila.
Mas aviso logo:
a fila anda devagar,
porque quem reclama demais
sempre tropeça no próprio ego.

Sim, eu sou nerd.
Sim, eu sou otaku.
Sim, eu amo quadrinhos.
Sim, eu gasto com maquiagem
como quem investe na própria alegria.
Sim, eu choro por bichos
e nunca por gente que vive de veneno.

E tudo isso junto
não me faz menos mulher,
menos forte,
menos séria,
nem menos profunda.
Me faz EU.
E eu já aprendi
que ser eu mesma
é a parte favorita de Deus no meu currículo.

Tem gente que tenta diminuir,
que tenta rotular,
que tenta fazer gracinha —
mas gracinha mesmo
é achar que eu ligo.
Eu?
Eu sigo assistindo anime,
passando rímel,
cuidando dos meus bichos
e servindo um Deus
que olha o coração
e não o feed alheio.

E se alguém vier com julgamento,
eu só digo:
“Querida, tem botão de voltar ali, ó.”
Porque eu não fui feita
pra caber na caixinha de ninguém,
nem pra agradar desgosto de ninguém,
nem pra apagar brilho
pra consolar sombra dos outros.

Eu brilho.
Brilho de propósito.
Brilho porque quero.
Brilho porque Deus mandou brilhar
e ponto final.

E ser nerd não atrapalha minha fé.
Ser otaku não diminui minha essência.
Amar quadrinhos não afasta minha salvação.
Maquiagem não remove minha identidade.
E amar animais só prova
que meu coração tem mais afeto
do que muita gente que se acha santa.

Eu sou tudo isso junto,
misturado,
colorido,
intenso,
estranho para uns,
incrível para outros,
e perfeito para mim.

E se algum dia alguém perguntar:
“Mas você precisa ser assim?”
Eu respondo:
“Preciso não.
Eu escolho.”

E quem não gostou?
Bom…
pega a senha.
A fila é longa
e eu não estou com pressa.

E tem mais uma coisa que esquecem:
eu sou leitora voraz.
Leio como quem respira fundo,
como quem mergulha em mundos inteiros
só para voltar mais inteligente
do que quando entrou.
Livro pra mim não é objeto —
é portal, é cura, é arma.

Sou leitora de tudo:
do clássico pesado
ao mangá que termina em três minutos,
do teológico profundo
ao romance que faz chorar na madrugada.
Enquanto o povo fala besteira,
eu devoro páginas.
Enquanto criticam minha vida,
eu aumento meu vocabulário.

E se acham muito,
espera só até descobrirem
que eu sou escritora.
Sim, EU —
a nerd, a otaku, a doida dos bichos,
a serva de Deus maquiada e estilosa —
sou escritora também.
Crio universos,
mato personagens,
ressuscito outros,
e ainda deixo leitor chorando no final.

Escrever é meu superpoder.
E não tem gente amarga
que estrague isso.
Minhas palavras têm mais força
do que opinião de curioso.
Meu papel em branco
vale mais que qualquer fofoca,
porque nele eu existo inteira,
solta, firme, verdadeira.

E sabe o melhor?
Quem não gosta também vai pra fila.
Fila essa que só aumenta,
porque quanto mais eu leio,
mais eu escrevo,
quanto mais eu escrevo,
mais eu cresço,
e quanto mais eu cresço,
mais eu incomodo.

No fim das contas,
eu sou essa mistura única:
leitora faminta,
escritora afiada,
otaku assumida,
nerd feliz,
louca dos bichos,
perita em delineado,
mulher de personalidade,
serva de Deus antes de tudo
e completamente apaixonada
por ser quem eu sou.

----------------------------------------------------------------------------------------------------------CURRÍCULO NÃO É MOEDA DE FAVOR

Tem gente que chama sorte
o que sempre foi desleixo.
Nunca fica, nunca cresce,
mas reclama do espelho.
Emprego entra, emprego sai,
e a culpa nunca é dela.
O problema é sempre o chefe,
o horário, a empresa, a regra.

Tentou uma vez, saiu mal.
Tentou outra, saiu pior.
Confunde oportunidade
com direito sem suor.
E quando a porta fecha,
procura alguém pra usar.
Não pede ajuda, exige,
como se eu devesse pagar.

Veio com voz mansa,
memória seletiva.
Lembrou que me conhecia
quando a vida ficou difícil.
Currículo pronto,
mas a conta não era dela.
Outra pessoa pagou,
e eu virei a ponte inteira.

Levei na casa dela,
entreguei com educação.
Recebi silêncio em troca
e nenhuma gratidão.
Folga não pede licença,
se instala, se acomoda.
Acha que favor é obrigação
e respeito é moda.

Quer emprego, mas não compromisso.
Quer apoio, mas não entrega.
Quer subir sem degrau,
quer colher sem plantar regra.
Eu aprendi com o cansaço
que não é frieza, é limite.
Quem nunca se esforça
não entende quem persiste.

Não sou escada de quem escorrega
por falta de vontade.
Não carrego destino alheio
disfarçado de amizade.
A vida não falha com você,
você falha com ela todo dia.
E eu sigo pagando meu caminho,
não sua preguiça travestida de simpatia.

Por Kaily Yada



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