'Tem bastante inteligência e ciência no que o agro faz aqui em Mato Grosso do Sul'

Economista aponta que o crescimento do Estado é resultado de produtividade e investimento privado; defende equilíbrio fiscal e diz que o País precisa de determinação política para fazer o 'dever de casa'

| CORREIO DO ESTADO / SúZAN BENITES E KARINA VARJãO


Rafael Chaves Santos - PhD em Economia e professor da FGV - Paulo Ribas
publicidade

Cotações

Com experiência em pesquisa e formulação de modelos macroeconômicos, o economista Rafael Chaves Santos avalia que o bom desempenho de Mato Grosso do Sul está longe de ser fruto apenas da sorte ou da alta das commodities.

Para ele, há bastante inteligência e ciência no que o agro faz aqui no Estado, o que explica porque a economia sul-mato-grossense tem crescido acima da média nacional.

Na entrevista ao Correio do Estado, Chaves fala sobre os desafios fiscais do País, o papel dos juros altos, a atratividade do investimento privado e as perspectivas para a economia brasileira em 2026.

Segundo o economista, a sustentabilidade do crescimento depende de disciplina fiscal e de confiança nas regras. Ele adverte que o Brasil “precisa fazer o dever de casa e cortar na própria carne”, sob pena de o mercado impor um ajuste mais duro no futuro.

Ao analisar a conjuntura nacional, ele reforça que os juros elevados não são culpa do Banco Central, mas reflexo de um desequilíbrio nas contas públicas que aumenta o risco fiscal e encarece o crédito.

___

Mato Grosso do Sul tem registrado crescimento econômico acima da média nacional, impulsionado pelo agronegócio e pela industrialização da celulose. O que explica essa performance diferenciada em relação a outros estados brasileiros?

Eu acho que, diferente do que alguns economistas falam, de que o agro é uma commodity, em uma operação de certa forma simples, eu acho que na verdade o sucesso aqui da região tem muito a ver com investimento, produtividade, ganho de produtividade. Então, eu acho que tem bastante inteligência e ciência no que o agro faz aqui em Mato Grosso do Sul.

Esse crescimento concentrado em poucos setores – como soja, milho e celulose – representa uma vulnerabilidade estrutural para o Estado ou pode ser considerado um caminho sustentável de desenvolvimento?

Acho que é uma oportunidade, um caminho. Acredito que o passado mostra como o crescimento robusto e acelerado, econômico, puxado pelo agro, mostra que é uma oportunidade. Eu acho que isso não é nem uma questão de opinião, isso é um fato já. Em time que está ganhando, a gente tem que continuar torcendo. 

A diversificação é bem-vinda, ter outras fontes de crescimento econômico é sempre bom. Mas isso não quer dizer investir menos no agro ou crescer menos no agro.

A gente tem que investir aqui regionalmente em outras frentes, mas jamais em substituição ao agro. Ao contrário, com a ajuda no crescimento econômico que o agro traz, o capital, os investimentos que ele catalisa, ajuda a gente a desenvolver outras áreas.

Como avalia a relação entre o atual ciclo de investimentos industriais em Mato Grosso do Sul e a capacidade de geração de empregos de maior valor agregado?

Investimento, de uma forma geral, é bom. Para ter emprego, a gente tem que ter mão de obra capacitada e investimento de capital. Então, onde tem investimento, tem emprego. O outro ponto que eu acho que é bem favorável aqui em Mato Grosso do Sul é o volume de investimento privado.

Você tem muita alocação de capital privado. Tipicamente, o capital privado tende a ser melhor alocado do que o capital público. Então, aqui, como a gente tem uma economia bem robusta, com muitos investidores, eu acho que isso é uma vantagem competitiva para a região.

O País vive uma expectativa de redução da taxa Selic de forma gradual. Na sua visão, há espaço para cortes agressivos, considerando o comportamento da inflação e da atividade econômica?

Tem uma expectativa de que ele vai começar a baixar. Os juros no Brasil estão muito altos e isso é muito ruim para o setor produtivo. E, como brasileiro, eu torço para que esses juros caiam. Agora, a gente tem que entender que esses juros altos não são culpa do Banco Central, a inflação segue rodando acima da meta. 

Então, o que justifica os juros no patamar que está, o Banco Central faz um trabalho técnico, já há muitos anos, no Brasil, e o grande problema dos juros altos no Brasil, que tem que ser atacado, é a fragilidade fiscal. É o descontrole e a falta de perspectiva de um ajuste fiscal de contas públicas.

Então, o governo, quando vai pagar a dívida dele, acaba pagando um preço muito caro, porque o risco também é elevado.

O senhor foi um dos coautores do Samba, modelo usado pelo Copom nas decisões de política monetária. O que esse modelo indica sobre o estágio atual da economia brasileira e as perspectivas para 2026?

O que o modelo indica é que, de fato, a gente está em um ciclo de aperto monetário, com a taxa de juros bem elevada, acima do neutro, e já mostrando os primeiros sinais de desaquecimento da demanda, com a expectativa de que a inflação vá convergindo para a meta.

Agora, a gente tem que aguardar, ter a segurança de que a inflação volte para a meta, e o modelo tem certeza, o modelo está indicando isso, que a inflação ao longo do próximo ano vai ceder e vai começar uma trajetória de convergência para a meta, mas a gente precisa confirmar isso com os números, à medida que eles estão sendo observados.

A economia está sempre sujeita a choques, daqui para lá muita coisa pode acontecer, então eu acho que o Banco Central segue vigilante, mas a gente tem a expectativa de que em breve inicie um primeiro corte na taxa Selic, mas a ser confirmado pelos próximos números.

Em termos regionais, como o nível de juros impacta estados exportadores de commodities como Mato Grosso do Sul, em comparação a economias mais baseadas em serviços e consumo interno?

Olha, a economia do agro é intensiva em capital. Então você precisa botar dinheiro na frente para depois ter a safra, quando você tem um pagamento de uso muito alto, o custo de oportunidade do dinheiro fica muito elevado.

Você pode ter uma tentação de deixar o dinheiro no banco rendendo, em vez de investir na terra, na pecuária. Por outro lado, eu acho que o empresário investidor aqui dessa região é um apaixonado pelo Brasil, pelo agro, pela economia regional, ele normalmente acredita, aposta, investe na terra e investe na pecuária.

Isso tem ajudado muito o Brasil, o crescimento econômico nos últimos anos.

Acredita que o Brasil precisa repensar sua política fiscal para sustentar o crescimento sem pressionar a inflação? Como equilibrar responsabilidade fiscal e expansão econômica?

Não há dúvida que tem que ter o equilíbrio fiscal. E o equilíbrio fiscal vai permitir maior confiança no País e atração de capital privado. Eu disse que o investimento é sempre bom, mas desde que ele crie valor. Uns criam mais valor, outros criam menos valor.

Então, em geral, quando o investimento é feito por capital privado, tem o dono do dinheiro. Você já ouviu aquela frase de que o olho do dono engorda o boi. Quando o empresário está colocando o dinheiro do bolso dele, ele está de olho ali para aquele dinheiro retornar, para ser um bom investimento.

E o Estado tem que fazer o dever de casa, fazer o ajuste fiscal e permitir que a gente tenha um ambiente de negócio em que o empresário, o empreendedor, seja mais do que respeitado, ele tem que ser admirado e isso falta um pouco no Brasil.

A gente tem a admiração pelas pessoas que tomam risco, botam dinheiro do próprio bolso para movimentar a economia.

Na sua avaliação, o novo arcabouço fiscal e a política de metas de inflação estão alinhados para garantir estabilidade e previsibilidade ao País? Ou há ajustes necessários nesses instrumentos?

O sistema de metas da inflação é muito bom, acho que é a fórmula correta de tratar a inflação, e acho muito importante a gente ter um arcabouço fiscal que discuta os limites que têm que ser impostos ao gasto público, como lei de responsabilidade fiscal, etc.

Então, acho que os desenhos de mecanismos estão aí, o que está faltando é determinação política para fazer cumprir um ajuste fiscal necessário, um remédio amargo, talvez do ponto de vista político, onde você corta um pouco da própria carne, especialmente a gente vai entrar em ano de eleição, algo difícil de ser feito, mas eu acho que o crescimento econômico e o bem-estar do brasileiro ter que estar acima dessas questões.

E, sinceramente, eu não tenho visto sinais de vontade política e de determinação de se fazer o ajuste fiscal, o que é muito preocupante, porque o ajuste fiscal vai vir antes ou depois da eleição. Em alguma hora o mercado vai ‘forçar’ esse ajuste fiscal. Então, quanto mais tempo demorar para fazer alguns ajustes, mais duro tende a ser.

O Brasil ainda convive com juros reais entre os mais altos do mundo. Esse é um problema de política monetária ou de risco fiscal e institucional?

Isso é um problema fiscal. O Banco Central controla a taxa de juros no curto prazo, mas a taxa de juros de longo prazo é um preço de equilíbrio e, recentemente, a curva de juros tem se inclinado, o que isso quer dizer?

Para você investir num título do governo de longo prazo, o mercado está cobrando taxas cada vez mais altas, porque está percebendo um risco grande do governo ter dificuldade de honrar com os pagamentos lá na frente. Porque ele não enxerga uma perspectiva de ajustes de gastos que cresçam de forma compatível com a arrecadação.

Isso é um ponto importante de entender, quando a gente fala de fragilidade fiscal, é a velocidade com que a dívida está aumentando. O gasto público está crescendo de forma mais rápida do que a arrecadação. E a arrecadação no Brasil já é excessivamente alta, o País já tem uma carga tributária muito alta.

Então, é importante entender que os gastos estão crescendo mais rápido do que a arrecadação e isso compromete, porque a gente não consegue enxergar uma trajetória de reversão do crescimento da dívida, que está se aproximando de 80% do PIB [Produto Interno Bruto].

Quando teve o sistema de metas para a inflação, em 1999, a dívida era menor do que 60% e o superavit primário era próximo de 3% ao ano. Hoje, a gente tem uma dívida próxima de 80% e a gente não tem superavit primário.

E, ainda por cima, a gente tem uma série de despesas, uma interpretação contábil, uma ginástica contábil para não fazer parte do arcabouço, isso é bastante preocupante.

Olhando para os próximos cinco anos, quais são, na sua opinião, os principais riscos e as maiores oportunidades para a economia brasileira? E como Mato Grosso do Sul se encaixa nesse contexto?

O principal risco é o risco fiscal que a gente tanto falou aqui, das contas macroeconômicas desalinharem e aí a gente vai sentir o reflexo disso talvez um pouco no câmbio, na inflação e espero que isso não aconteça, mas seria muito desagradável, em termos de custo econômico, a gente encarar uma crise de desvalorização cambial muito abrupta, com efeito na inflação, prejudicando investimentos de longo prazo, capacidade de investir e acreditar no setor produtivo brasileiro.

Falar de oportunidade no Brasil é até difícil, mas, aqui, aproveitando que a gente está em Mato Grosso do Sul, eu acho que continuar investindo no agro, sem dúvida, é receita de sucesso.

MS gera uma riqueza não só localmente, mas exporta muito alimento, você pode ter inteligência artificial, transformação digital, mas as pessoas continuam consumindo soja, um bom bife. Então, eu acho que o serviço que Mato Grosso do Sul presta para o mundo inteiro é muito bem-vindo.

{PERFIL}

Rafael Chaves Santos

PhD em Economia e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) desde 2014, Rafael Chaves é coautor do Samba – modelo econômico utilizado pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) como base para decisões de política monetária no País. Ex-diretor de Relacionamento Institucional, Estratégia e Sustentabilidade da Petrobras, ele também presidiu os conselhos do IBP, Transpetro e TBG (Gasbol), além de atuar na Vale International, na Suíça, e no fundo internacional OGCI-CI, em Londres. Atualmente, coordena os programas de mestrado e doutorado profissional em Economia e Finanças da FGV.



Clique aqui e confira as últimas notícias de Itaporã! 

Siga o Itaporã News no Youtube!

Grupo do WhatsApp do Itaporã News Aberto!

WhatsApp. VIP do Itaporã News clicando aqui!"

WhatsApp do Itaporã News, notícias policiais!

"Ao vivo a programação da Alternativa FM de Itaporã."